O azeite é um tempero requintado e uma base importante para a confecção de uma boa malha de rock psicadélico, progressivo e de expansões jazzísticas. Os três Rodriguez-Lopez de Zechs Marquise parecem estar mais cientes disso do que o irmão mais velho Omar, guitarrista e mentor dos Mars Volta, que tão facilmente, no seu trabalho, vai de oito a oitenta no uso do óleo vegetal. Em Getting Paid, o segundo álbum destes texanos, os exageros instrumentais são relegados para o plano de fundo, em prol das progressões melódicas, quase simples, sempre certas e eficazes. Mas não me interpretem mal: há muitos solos.

Parece que os astros se alinharam para este segundo disco dos Zechs Marquise – o que, por associação, quer dizer que Getting Paid talvez seja o disco que os leva a ser, finalmente, pagos pela música que fazem. Não só está a crítica mais preparada para aceitar contribuições totalmente instrumentais, cheias de groove e imensamente rockeiras, tanto nas suas linguagens kraut quanto nas mais progressivas e artísticas, como os próprios consumidores da música alternativa já aceitam mais facilmente bandas comoEternal Tapestry e Causa Sui, de propósitos semelhantes, ainda que os Marquise se movam num terreno tão fértil em funk quanto o dos Funkadelic; melhor ainda, este novo investimento dos norte-americanos está, de longe, muito mais equilibrado que o seu antecessor, Our Delicate Stranded Nightmare.

Na sua estranha mistura de funk com a vontade de avariar em jam de forma absurdamente psicadélica e com um constante piscar de olhos à electrónica (Time Masters), o novo álbum deste quinteto tem um som tão contagioso polido e lixado de psicotrópicos que é impossível não o encavalitar nos píncaros. Adicionando a isso a inteligência de gerir a duração das músicas, nunca demasiado longas, pode-se dizer que este é capaz de ser o ano dos Zechs Marquise, que atacaram esta coisa dos devaneios sem vozes de forma tão precoce, para só agora recolherem frutos.

Ainda que acelerados, os agora cinco rapazes têm toda a calma na forma como não se precipitam em tecnicismos impossíveis de digerir, preterindo-os em favor de baixos a transpirar balanço, a baterias imaculadamente encaixadas nas dinâmicas da música, o que permite às guitarras serem tanto a melodia como a afirmação heróica do espírito rock-star em mega-solos e os teclados serem, constantemente, o ambiente fora de si. Claro que nem tudo é simples e imediato em Getting Paid; há provas claras de virtuosismo progressivo em Static Love e Guajira – aqui em todos os instrumentos –, por exemplo, para não estar a citar o álbum todo.

Finalmente, o mundo está preparado para os Zechs Marquise e eles estão mesmo no ponto, prestes a tomá-lo de assalto. Ainda é cedo para atribuir galardões e decidir quem ganha a corrida dos melhores discos do ano, mas estes rapazes estão lançadíssimos.