Se Hercule Poirot tivesse como missão deslindar se Yob é ou não uma banda capaz de integrar as fileiras daqueles que marcaram a história do doom, a resposta seria dada prontamente, mal ecoasse o hipnótico riff de Quantum Mystic. Não só de imediato entenderia que Yob é magnificência catalisada por antimatéria, como o seu bigode se contorceria, tal a malvadez “decibélica” que irrompeu pela bem composta sala 2 do Hard Club, na noite de quinta-feira.

É um facto consumado: estes norte-americanos são uma das pedras preciosas da última década. Ao vivo, transitam esta sentença em julgado, reforçando-a com uma muralha sonora que se divide ora pela possante guitarra de Mike Scheidt, ora pela combinação rítmica abrutalhada de um baixo e de uma bateria que nunca deixam o som de Yob cair numa zona desmilitarizada. Acima de tudo, o que os três querem é proporcionar um asfixiamento físico e mental, sem direito a tréguas. E executam-no sem qualquer tique de malvadez; fazem-no para nosso bem. É que, ao final de cada música, o nosso corpo vai-se sentindo cada vez mais próximo de um nirvana. Resta, então, agradecer a uma animalesca Grasping Air, a uma assombrosa Burning The Altar e a uma psicótica Ball Of The Molten Lead a viagem etérea que nos proporcionam.

Convém igualmente não esquecer que os Yob não vieram fazer a sua primeira tour europeia só porque sim. Eles andam com um novo álbum às costas. E, no Porto, Atma não foi esquecido. Coerentemente, os senhores de Eugene optaram, desse disco, pelas faixas que nos colocam em pleno ringue de boxe com um Mike Tyson: tanto a homónima, quanto Prepare The Ground, funcionaram como estupendos murraços no ventre – sempre dados por uma boa causa.

Visivelmente surpreendidos pela forma exuberante como os portuenses os congratularam assim que o feedback se calou, os Yob voltaram aos seus postos para finalizar com The Great Cessation, a monumental peça de vinte minutos que encerra o seu disco de 2009, e que, pela primeira vez, foi tocada com Rob Shaffer na bateria. Ponto de exclamação naquele que foi um dos melhores concertos do corrente ano.

Rob Shaffer esse que, durante toda esta digressão pelo Velho Continente, tem actuado duas vezes por noite. Sim, ele também espatifa o drumkit em Dark Castle, a sua banda de sempre. Regressado ao Porto depois de em 2010 ali ter feito a primeira parte de Kylesa, é provável que o duo composto por Shaffer e pela mulher-demónio Stevie Floyd tenha conseguido uma melhor actuação do que a do Porto-Rio. Aliás, Dark Castle só não leva o título de melhor concerto da noite porque Yob quis transformar o Hard Club no seu planeta de estimação.

Se as dúvidas em disco ainda imperam, ao vivo os Dark Castlerecomendam-se vivamente. São negros, são tempestuosos. Fazem o estrondo parecer simples, já que apenas a guitarra e a bateria são usadas como arsenal. Ah!, e a voz, a voz de Stevie, capaz de fazer das vísceras um berro impiedoso, enquanto revira os olhos em sinal de que a sua alma não está confinada ao Porto. Dark Castle, um exército tribal de dois elementos amaldiçoados.

Ainda tudo isto não passava de especulação, já os Kongh se faziam ouvir, outra banda que também conhecia o Porto de distintas andanças – em 2009 actuaram na Fábrica do Som. Suecos por natureza, mas musicalmente adequados àquilo que os norte-americanos Yob e Dark Castle praticam, os Kongh não são revolucionários, mas aquilo que fazem, fazem-no com sucesso. É doom bem tocado e isso foi suficiente para colocar o Porto com o espírito certo para a saudável vileza que se lhes seguiria.