Com uma acústica verdadeiramente imbatível, a Aula Magna tem uma aura especial que lhe concede grandes espectáculos no nosso país. No passado recente, houve, por exemplo, a avassaladora passagem dos Mogwai em 2009, a apresentação do divino Popular Songs, dos Yo La Tengo, em 2010, ou, em 2012, os dEUS a mostrarem que, mesmo fazendo discos mais fracos, continuam a ser verdadeiras máquinas em palco. Três anos depois, Ira Kaplan, Georgia Hubley e James McNew voltaram ao local do crime, com o mais cândido e tranquilo Fade e com uma sala bem preenchida. Apesar dos enormes méritos da presença em 2010, o espectáculo dos Yo La Tengo deste ano pareceu outra coisa, algo superior e do melhor que se ouviu em Portugal em termos de música ao vivo. Correcção: não foi só um concerto magnífico, foram dois.

Concerto nº1: acústico, cândido, bonito, intimista, melancólico ou triste q.b. Com percussão minimal e sem ruído ou distorção, o arranque fez-se com uma maravilhosa e descarnada versão deOhm, demonstração absoluta da versatilidade e das várias vidas que os temas dos Yo La Tengo têm.

O alinhamento dividiu-se entre temas de Fade, como o sussurrante I’ll Be Around ou o lindíssimo Cornelia and Jane, mais simples na ausência dos sopros, mas nem por isso menos bonito, e alguns regressos ao passado. Fiel ao estatuto de imprevisibilidade da banda americana, as escolhas recaíram por temas menos óbvios, como Demons, da banda-sonora de I Shot Andy Warhol, com uma bela guitarra melancólica e uma interpretação desarmante de Georgia (não há qualquer coisa semelhante a Scarborough Fair, de Simon & Garfunkel?), Gentle Hour, da compilação Dark Was the Night, cantado pelo baixista e com Ira no piano, ou Satellite, do menos conhecido May I Sing With Me, de 1993. Em termos vocais, a alternância entre os vários músicos foi mostrando, num tom pausado e delicado, o lado mais doce e melódico da música dos Yo La Tengo

Para o final, os primeiros acordes de Tom Courtenay estimulam o entusiasmo do público para uma versão que, de resto, se revela quase irreconhecível em formato acústico. Foi o final deste belíssimo primeiro concerto e, se mais não houvesse, já sairíamos razoavelmente satisfeitos com o que ouvimos. Porém, depois de um intervalo de meia-hora, a noite musical ainda seria bem longa.

Concerto nº2: eléctrico, pujante, ruidoso e carnal. A distorção da guitarra nos primeiros sons mostrou logo que poucas seriam as semelhanças com a primeira parte. Depois, o viciante e directoNothing to Hide confirmou o óbvio, ou seja, que chegava a altura dos Yo La Tengo mostrarem a sua veia mais suja e noisy.

De Fade, houve o mais ríspido Paddle Forward, a versão mais fiel ao original de Ohm (completamente diferente da versão acústica, como é óbvio, com a sobreposição de camadas sucessivas de som) e interpretações bastante mais fortes, do ponto de vista sónico, de Is That Enough ou Before We Run. Se, nestes temas, os violinos fizeram alguma falta, os metais foram bem compensados pelo reforço do baixo e de guitarra. E, em particular no último tema mencionado, a progressão final foi verdadeiramente avassaladora.

Nos entretantos, houve também temas antigos, como a cover deLittle Honda, dos Beach Boys, a primeira visita ao velhinho Painful, com um Sudden Organ marcado por uns sintetizadores a testar a capacidade sensorial do ouvinte, ou, num breve momento de maior tranquilidade, o mais gingão e maravilhoso Beanbag Chair. Foi uma das poucas escolhas óbvias de um alinhamento que não contou com Did I Tell You, Sugarcube, Stocholm Syndrome, Our Way To Fall ou Mr. Tough. A rotatividade de temas nos concertos dos Yo La Tengo é enorme, chegando mesmo a ser desconcertante, o que só pode ser nota de elogio. Eles despedir-se-iam de palco com uma longa epopeia noise de quase 20 minutos, em Pass The Hatchet,I Think I’m Goodkind, com muito, muito ruído, mas também com uma linha de baixo constante, hipnótica e irresistível.

O encore começou com duas covers, primeiro em tonalidades ligeiramente mais country, revisitando os  Seeds, e depois numa diabólica versão meio psychobilly de uma faixa dos Fugs. Seguiu-se o momento mais delirante da noite, quando Ira Kaplan pediu a um espectador para seleccionar algo alheio que os Yo La Tengo já tivessem tocado anteriormente. A escolha recaiu num tema dos Love e, como a banda já não se lembrava da melofia, o insólito sucedeu: um pequenino ensaio para o recordar antes da interpretação definitiva. Poderia ser uma ideia absurda, mas só mostra o talento, a confiança e a cumplicidade que existe entre os Yo La Tengo e o público. Com esta última cover, dariam o mote para um final novamente mais cândido, com a enternecedora Big Day Coming, sem percussão.

Depois de muitos aplausos, os Yo La Tengo voltariam para um segundo encore. Após alguma indefinição, cantaram uma não identificada melodiazinha quase infantil e bucólica, em perfeita sintonia com as três árvores que decoravam o palco. Foi o fecho de um concerto magnífico e, tal como em 2010, o espírito terra-a-terra de Ira notar-se-ia de seguida quando se juntou à vendedora de merchandising para dar autógrafos e trocar impressões com as pessoas, manifestando a mesma simpatia contagiante que exprime em palco.

A meio do concerto eléctrico, alguém pediu à banda que tocasse The Story of Yo La Tengo, ao que Ira respondeu que todo o concerto era a história dos Yo La Tengo. Verdade absoluta, naquela que é uma das bandas mais consistentes, mágicas e criativas das últimas décadas, para quem os concertos estão longe, bem longe, de ser uma mera transposição do estúdio. Esta noite da Aula Magna foi exemplo claro disso… vénia, grande vénia a Ira, Georgia e James.