Ao longo de vários anos, Jamie Stewart – a mente que desenvolve e cria todo o medonho processo em que resultam as estranhas composições dos Xiu Xiu – vem dando razão à máxima criada porFernando Pessoa que referia que “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”. “Angel Guts: Red Classroom” vem juntar mais um desses momentos à longa discografia do norte-americano. Terminadas as catorze faixas, a sensação de estranheza acaba por roçar o incómodo. Talvez o mesmo desconforto com que era finalizada cada nova audição do homónimo dos Suicide. De facto, toda a experimentação e o minimalismo que Martin Rev desenvolveu assentam no novo longa-duração de Stewart.

Mais do que nunca, a voz soa reprimida, respirada e assustada o que, a par da teia construída pelos sintetizadores em “Stupid In The Dark”,confere um cariz dramático a todo o disco, sem que seja necessário aproveitar mais do que a escassa melodia e batidas repetitivas da drum machine ,tornando a sua escuta uma infernizada delícia. Não fosse assim e seria impossível suportar temas obsessivamente repetitivos como “Black Dick” ou “The Silver Platter”.

Muito distante da melodia com que tantas vezes somos afrontados com os sintetizadores, em “Angel Guts: Red Classroom” o que mais se encontra é o seu conteúdo mais abrasivo, fazendo lembrar aquilo que os The Knife tanto procuraram em “Shaking The Habitual” e, se nos dissessem que uma malha como “Lawrence Liquors” tinha resultado de uma colaboração, a admiração não seria nenhuma.

Aquilo que de mais admirável resulta deste trabalho é o constante desafio que as várias formações dos Xiu Xiu têm protelado nos seus álbuns. Já os vimos quase acústicos, já os vimos a brincar ao jazz, mas também já os testemunhamos na pop. Contudo, parecem sempre procurar o mais decadente e podre que há em cada lugar onde se enquadram. Por isso, não é de admirar que esta caminhada tenha desaguado naquele que acaba por ser o fruto mais radical e negro da banda, mostrando que não há limite para a perversão de Jamie Stewart.