Dia 1

Se era facto que sexta-feira era o dia com menos bandas, não menos verdade era a qualidade inegável do cartaz dominado claramente pelo black metal.

A estreia ao vivo de Vaee Solis surgiu horas após o lançamento de estreia “Adversarial Light” ter sido cuspido bandcamp oficial. Foi pois tempo de confirmar que o poder abrasivo se transpunha na plenitude para palco. Se em estúdio a banda já se mostra como monstro arrastado e dissonante, ao vivo o nível de intensidade até parece subir. Há uma capacidade pouco normal para quem se iniciou como colectivo há pouco tempo de fazer coexistir riffs de tão diferentes proveniências com tanta eficácia. É naturalmente bicho a seguir com atenção.

Da lentidão do sludge para a violência visceral do punk arraçado de metal de Scum Liquor. Foi um vendaval que assolou a sala com riffs saídos da escola de Motörhead e disparos vocais que iam atingindo a audiência. Tudo isto culminou com a homenagem a GG Allin e o clássico de podridão que é “I Kill Everything I Fuck”.

Ambiente © Pedro Roque

Era tempo dos ingleses (na verdade a banda é constituída por um russo, um polaco e um dinamarquês) Sturmtiger. O war metal  tem vindo a ganhar espaço no EMA ao longo dos anos mas a verdade é que desta vez a aposta saiu algo ao lado. O subgénero por si só já não é dado a grandes virtuosismos mas infelizmente a execução esteve demasiado abaixo até para padrões mínimos. Se “World At War 1914-1918” (álbum de estreia lançado no ano passado) soa coeso e musculado, a apresentação ao vivo foi uma experiência antagónica e desconexa.

Ao contrário do que aconteceu nas guerras mundiais a redenção veio mesmo da Alemanha na forma de Darkmoon Warrior. O black metal de múltiplas variantes dos alemães resgatou a noite depois do desastre inglês e começou a fazê-lo no momento em que o riff épico de “Fuck Off” mostrou ao que vinham. A capacidade de transição estilística quasi-Type O Negative e um verdadeiro hino ao BM iniciaram uma apresentação com vários pontos de destaque. O álbum “Nuke ‘Em All” esteve em natural evidência noset e foi precisamente do trabalho de 2013 que surgiram duas verdadeiras pérolas: “Satanification” e sobretudo “Waves Of Salvation”. O primeiro tema é um verdadeiro porta-estandarte do que significa misturar atmosfera com pura agressão ortodoxa ao passo que o segundo transporta a banda para caminhos diferentes, quiçá não muito distantes daqueles pisados por uma das outras bandas do vocalista/baixista A. Krieg: Anti. A prova de que fazer black metal de pendor mais introspectivo não tem que ser minimamente lamechas. Dois grandes momentos numa actuação imaculada.

Dia 2

O black metal continuou a marcar o segundo dia do festival com destaque para as propostas nacionais. Primeiro a estreia ao vivo de Ruach Raah com uma vertente mais crua do género que raramente sai das catacumbas mas que muito se saúda a um festival como o Extreme e seguidamente Nefastu. A banda do Porto é das mais consistentes do género ao vivo e provou-o uma vez mais. Já está a fazer falta mais um lançamento depois das duas primeiras demos.

A habitual presença do heavy metal mais tradicional no festival esteve a cabo de The Unholy e Dragon’s Kiss. Foi a pausa para jantar.

O regresso foi marcado pelo death metal arrastadão de Anarchos. A actuação foi algo inconstante balançando entre riffs bem conseguidos (geralmente os mais lentos) e os clichés mais dispensáveis do género, mas nota-se a tentativa de ser mais do que um clone dos grandes nomes que marcaram o género nos anos 90. O facto de ser uma banda ainda relativamente recente talvez explique a inconsistência mas há material com que trabalhar.

A última presença portuguesa na noite foi dos Neoplasmah. “Auguring The Dusk Of A New Era” lançado em 2014 foi o confirmar do ressurgimento da banda. Se é sempre interessante ver músicos de tamanha proficiência técnica ao vivo (destaque claro para a máquina Rolando Barros), o problema surge quando acaba por não passar muito disso.

O final do festival trazia aquele que era considerado por muitos o grande momento do festival: Aura Noir. Pela longa carreira, pelo facto de serem uma das poucas bandas norueguesas saídas da grande cena dos anos 90 que parece melhorar com o tempo e por um line-up verdadeiramente de luxo. Afinal não é todos os dias que se tem em palco Blasphemer (ex-Mayhem), Appolyon (ex-Dødheimsgard) e claro, Carl-Michael Eide cujo percurso demoraria demasiado a documentar mas que é fundamental para a evolução do género.

Há uma diferença clara entre ser mestre e seguidor. Essa diferença é sublinhada no momento da execução. Há milhentas bandas de black/thrash, mas não há nenhuma como Aura Noir. Aliar com mestria riffs orelhudos, solos intrincados e atmosfera não é algo que muitas bandas consigam fazer. É por isso que há poucas bandas a fazer verdadeiros hinos como “Condor”, Conqueror”, “Abbadon” ou “Hades Rise”. O final perfeito para mais uma edição com saldo amplamente positivo do Extreme Metal Attack.