Os Wovenhand passaram ontem, dia 5 de Dezembro, pela Casa da Música, no Porto, e eu tenho a obrigação de atalhar para a conclusão maior: David Eugene Edwards, que nem um príncipe lagarto, foi o feiticeiro, o peiote e a alucinação do transe em que a Sala 2 se viu mergulhada durante a cerca de hora e meia em que os norte-americanos pisaram o palco.

Com uma pesada herança na sua postura, na sua voz e nas suas mãos, Edwardsliderou através de gesto e espasmos uns Wovenhand mergulhados nos seus próprios sonhos, lixados como os blues, negros como o pós-punk e psicadélicos como só os contadores de estórias dos anos 60 e os nomes grandes do pós-rock, utilizadores compulsivos de ambientes sonoros e vozes recicladas, conseguem ser.

A primeira parte ficou nas mãos dos gregos Seven Seas Duet, que durante cerca de meia hora tocaram música típica dos Balcãs através de instrumentos tradicionais. Como os próprios explicaram, o projecto propunha-se ao impossível, que seria reproduzir o ambiente de algumas ilhas mediterrânicas, em que os músicos tocavam cercados pela população enquanto esta dança embriagada. Impossível porque as bebidas são caras na Casa da Música (eu que o diga, que ainda tentei ir na cantiga dos senhores) e porque quem vai para um concerto de Wovenhand não deve ir num perfeito estado de êxtase.

Contudo, executantes competentes de cada um dos instrumentos que apresentaram, os dois membros do Seven Seas, conseguiram fazer algum do público abanar-se ao som daquela tristeza dançante típica da região balcânica.

E é precisamente esta característica que faz com que o duo da Grécia não estivesse completamente fora de contexto naquele concerto. É esta tristeza maior, característica nos norte-americanos, que sobressai na música que o Seven Seas Duet apresentou em concerto e que encaixa tão bem numa preparação para Wovenhand. Aliás, em The Threshingfloor, este género apresenta-se como uma verdadeira influência para a banda do Colorado.

Com aquela pontualidade assombrosa da Casa da Música, pouco passava das 22h15 quando os norte-americanos pisaram o palco e silenciosamente fizeram as suas preparações, sob um som psicadélico de fundo. Cedo o baixo de Heart and Soul, dos Joy Division, se fez ouvir, impondo o ambiente e dissipando dúvidas sobre a bagagem dos Wovenhand. Foi um daqueles raros casos em que a versão, apesar da sua fidelidade para com a música do quarteto de Manchester, é melhor do que a original, portanto, uma óptima forma de começar as festividades.

Com um alinhamento mais focado no mais recente Threshingfloor, editado durante este ano, David Eugene Edwards e companhia seguiram a sua actuação com Sinking Hands e, depois, com a faixa homónima. No entanto, não deixaram os outros álbuns de fora, passando por Consider the Birds com The Speaking Hands, pelo álbum de estreia, Wovenhand, com Your Russia, por Mosaic com Whistling Girl e Winter Shaker, canções que ficaram para o encore.

Música sim, música não, Edwards gesticulava, cantava e entoava a história da música que se seguia, numa perfeita alucinação acompanhada pelo som grave que, quase silenciosamente, impedia que houvesse quebras, mantendo o público sob a sua actuação hipnótica, repleta de espasmos e de cânticos típicos dos nativos norte-americanos. É neste facto que baseio a minha comparação ao Jim Morrison, vocalista dos Doors, auto-aclamado rei lagarto. Rei só há um, mas David Eugene Edwards com os seus transes é o legítimo herdeiro ao trono.

Claro que, mais do que ajuda para a postura soturna da banda, a música foi a substância maior da experiência transcendente de domingo à noite, no Porto, e, para dizer a verdade, foi provavelmente aquilo que induziu as sensações de satisfação, de relaxamento e de algo vindo do além que atravessou o público de lés a lés. É a sua bagagem musical que faz dos Wovenhand uma banda de culto, juntando muito mais do que o que mencionei acima, e proporcionando momentos verdadeiramente pesados e capazes de provocar cabeceamentos, dada a sua densidade psicadélica e intensidade sónica.

Sobressaiu, claro, a capacidade de um único quarteto preencher assim uma sala, com baixos de Pascal Humbert que ora aqui, ora acolá, relembram Justin Chancellor dos Tool, o baterista Ordy Garrison que tem o papel de muito brincar com toda a artilharia que rodeia o seu aparato e adornar os transes, uma teclista e, claro, Edwards com as suas guitarras e o seu banjo completamente mergulhados em reverb. Esporadicamente, o seu irmão subia ao palco para ajudar com a voz, visto a garganta de David Eugene estar algo inflamada, segundo o próprio, e participaram, também, os Seven Seas Duet em algumas músicas, principalmente no encore, em que ajudaram os Wovenhand a atingir o clímax de toda a actuação.

Amanhã, o feito pode repetir-se no Santiago Alquimista. Aconselho a que aproveitem a oportunidade.