Quarenta e nove anos já passaram pelo corpo de Scott Weinrich – ou Wino, para os que o acompanham nos trilhos doom. Meio século de excessos, de histórias enigmáticas e, acima de tudo, de um legado musical imponente, de onde sobressai o seu trabalho nos míticos Saint Vitus. Dizia ele, em 1986, que tinha nascido demasiado cedo. Acrescentava que nunca iria ser igual a todos os outros, outros esses que eram aqueles com quem se encontrava na rua e cruzava olhares de desprezo. Nunca o foi. E como poderia ter sido?

Adrift é o segundo álbum da carreira a solo do vocalista e guitarrista americano. O primeiro, Punctuated Equilibrium, foi lançado o ano passado. As diferenças? Enquanto que o debutante se entrega ao paradigma comum de uma banda de rock, com tudo a que esta tem direito, o segundo, aquele que vos trago neste artigo, tem apenas a voz e a guitarra acústica de Wino. Não, não há distorção. Baixo? Não se escuta. Bateria? Ficou guardada na garagem. É apenas Wino inserido no seu próprio círculo, pronto a relatar tudo o que nele se encontra.

Adrift soa a confissão. Não a uma confissão de quem perde perdão, mas a uma confissão de quem apenas quer desobstruir uma consciência imbutida de largos anos de  tonalidades doomsters – algo tão bem descrito em Shot In The Head, música de Savoy Brown, “coverizada” por Wino: “twenty five years on a rock n’ roll band, ten thousand women on a one night stand”. (E não é a musica de que Wino faz cover. Também Iron Horse/Born To Lose, faixa criada pelos Motörhead, é alvo de uma interpretação folk do americano).
Quem não tem daqueles dias em que apenas a solidão é o reconforto necessário?Adrift é isso. É o pedir aos amigos para que saiam. É o pedir à família para que não incomode. É o abraçar da guitarra acústica. É o sentar à janela, num final de dia, e descarregar sílabas em acordes.

Mas será este álbum uma lamechice? Não, definitivamente. Nem era essa a intenção. Basta ouvir I Don’t Care – onde Wino assume toda a sua atitude característica do “estou-me bem nas tintas, faço o que me apeteço” – ou Mala Suerte para se perceber que este registo não tem a intenção de relevar um tom depressivo. Há uma abordagem musical também ela rock n’ roll, complementada através de alguns solos de guitarra eléctrica enfeitados com roupagem bluesy. Neste aspecto, há a destacar a faixa final Green Speed, música coberta de pura adrenalina acústica. Quase dá vontade de ir buscar os óculos escuros, as botas e zarpar num Ford Mustang pelo Arizona adentro.

Há, também, tempo e espaço para momentos mais intimistas. A meio do álbum, surge Suzanes Song, uma bela e suave peça instrumental de três minutos e meio (onde se sente até a respiração de Weinrich) que logo encaixa em Dbear, música dedicada a Scott Kelly. É verdade, Wino decidiu escrever uma faixa em homenagem ao vocalista e guitarrista dos Neurosis, com quem estreitou ligações nos Shrinebuilder (há, inclusive, planos para uma banda apenas com Wino e Kelly). Ecoam os versos “If I could call someone brother… It would be you”.

Scott Wino foi criado sob égide da escola tradicional de rock e blues, tendo ajudado a implementar, posteriormente, os alicerces do doom metal. Mas, como bom filho retorna a casa, este disco demonstra um veterano de regresso ao seu período de tirocínio, com todo o arcaboiço que os anos lhe deram, simultaneamente. Imperdível.