O que há para fazer quando o que resta é whiskey? Fronhas encharcadas em álcool, gajos sujos de barba a cravar droga, umRCA preso de trela e coleira ao baixo mais porco que o porco do meu padrasto – já dizia o Allen Halloween. É um animal indeciso o Dixie: pula feito puto, prende a garrafa de Jack Daniels pelos dentes, rasga só mais um bocadinho aquela t-shirt que lhe mostra a sovaqueira por lavar e derrama os olhos num estrabismo doente. O guitarrista, com a testa enfiada no boné dos Black Tusk, parece recortado de um postal redneck com todos os bordões que a América campónia grita: os trailer parks, as famílias mais numerosas do que um pelotão na Volta À França, as shotguns que disparam por qualquer capricho e a bandeira confederada ao fundo como uma vermelha flor de jarra. Os Weedeater são assim e curtem. E, quem foi para Alvalade à espera de um workshop em etiqueta, deveria ao invés ter comprado um livrinho da Paula Bobone e quedar-se por casa. É que eles cospem, berram, dizem caralhadas e tocam alto. Muito alto.

O feeling é bruto. Áspero. Malcriadão. Há por aí muita bandinha a pensar que o stoner é só meia-dúzia de gamanços aos Sabbath e mais umas graminhas sacadas sem que os Kyuss deem conta. Pronto, ‘tá feito. Os Weedeater não. Parecem de outra escola. Ou leram os livros errados ou, como confessa a intro da “Potbelly”, são analfabetos. E ainda bem que se estão nas tintas. Observá-los em concerto é ter a certeza de que, se pudessem, trocavam logo ali as guitarras pelo banjo de rabo comprido e o sludge pelo bluegrass mais ignorante. Acabariam a noite em covers de Lynyrd Skynyrde Creedence Clearwater regadas a licor e Lucky Strike. OsWeedeater vivem no limite entre o amplificador e o Kentucky Derby – três bêbados com a língua de fora à beira dum penhasco, equilibrados na ponta dos pés.

O groove alcoólico só dá folguedo. O novo baterista, que era dos Whores., torna “Hammerhandle” um número de circo e as linhas de baixo, como cobras de pântano, chamam pela “Mancoon” e sibilam pela novinha “Cain Enabler” – «This house is mine ‘cause Cain enable!» berra o Dixie enquanto manda um pirete a alguém que só ele vê. Os pescoços mexem-se. Trás e frente. Trás à frente. Trás à frente. Alvalade numa semiconsciência hillbilly. Já ninguém quer saber para onde foi o Jesus. As narinas abrem-se para respirar “God Luck And Good Speed” – o salmo narcótico – e “Bully” dá um cheirinho a Buzzov*en, mas assim só um nadinha de nada antes que “Weed Monkey” salte como um primata até fumar o tranquilizante. Weedeater.

Os Don’t Disturb My Circles despediram-se alertando os mais distraídos – «Não somos os Today Is The Day!». E não foram. O hardcore algébrico que por ali despacharam, desfiado em riffs de serrilha Botchesque e confabulações arrítmicas de quem escreve contra-tempos segundo Arquimedes, tem algo que reconheceríamos nas neuropatias de Steve Austin, mas tem também outra mão cheia de compulsões violentas. Um basqueiro bom segundo “Lugubrious Cacophonous”. Os Wells Valley, poli-semânticos no metal, trouxeram “Matter As Regent” debaixo do braço como um filhote pródigo e despediram-se ao converter “Set The Controls For The Heart Of The Sun” numa ode animal.