O imaterial espectro das meninas californianas, translúcido nos seus charrados esgares e cúmplices sorrisos, não se perdeu. Esse é o primeiro e, quiçá, mais relevante sublinhado a fazer – “Warpaint” mantém o trejeito hippie, o cabelo desalinhado, mas troca os sensuais e desérticos sopros do sudoeste norte-americano, quase anti-sociais na sua ambição de beijar despessoalizadas atmosferas, pela imersão citadina, noite fora.

groove sussurrante, intricado numa trama psicadélica/shoegaze, de guitarras e vozes ecoantes, esculpido no EP “Exquisite Corpse” e amadurecido em “The Fool”, relança-se em “Keep It Healthy” e “Love Is To Die”, os primeiros temas a sério. Porém, essa área de conforto, pelas quatro delineada e legitimada anos atrás, dissipa-se. Ao jam, espontâneo como se quer, “Hi” contra-argumenta numa drum beat trip-hop-ish, à Massive Attack, adornada por um baixo que Jenny Lee parece ter deixado cair no subsolo londrino, apaixonado pela vibração downtempo. O suspiro, britânico no tom, adensa-se quando o hi-hat de Stella Mozgawa nos recorda o pulso robótico de Phil Selway – ter Nigel Godrich, produtor dos Radiohead, a trabalhar no disco deve ter algo que ver com isso.

O sintetizador de “Biggy” não nos deixa abandonar essa sensação de vagueio noturno, numa tentacular metrópole à escolha do ouvinte. O ritmo controlado, chillout sim, mas confidente de uma figura humana agora descoberta, encontra uma brilhante extensão em “Teese”, também ela reminiscente de Thom Yorke e companhia – ouvi-la é como receber miminhos de boa noite, tal a meiguice. As Warpaint não precisam do hook pop, da construção obcecada pelo refrão orelhudo. A sua escrita, quase abstraída de direcção concreta, como se cada tema se pudesse prorrogar ad eternum no cochilo, basta. Até a upbeat funky “Disco//Very” – a malha que mais facilmente poderia ganhar contornos de hit – está longe de se vergar ante a cartilha que busca o clímax fácil. O devaneio tântrico de “CC” finta-nos quando antecipamos a eclosão; não, não há.

“Warpaint”, pese embora os seus positivos predicados, não deixa de carregar alguns fillers: “Drive” pouco acrescenta ao que de bom o registo tem e mesmo “Feeling Alright” falha na missão de se conglutinar à nossa memória. Por isso, a noção de que o álbum vai perdendo o elegante embalo inicial, no seu desenrolar, é mais do que justificável. “Son”, tema-despedida, resgata-nos dessa morninha espiral: uma balada ao piano, reverberante e sorumbática, fecha com divindade o segundo registo das norte-americanas. A destreza das Warpaint em esgrimir utópicas texturas mantém-se; os trilhos por onde elas se entornam e alastram mudou.