As Warpaint são um daqueles quartetos com os quais damos cabeçadas. Ou pelo menos, aqui no PA demos uma valente cabeçada nelas. “Miúdas, Warpaint, festival de música indie… mais uma dessas bandas que por aí anda.” Mas deixámo-nos de tretas e fomos os primeiros a levantar os rabos e a deixar cair os queixos perante esta banda fantástica. E até fomos os primeiros a invadir o palco! Somos esquisitos, mas também temos um coração de manteiga. Quando o põem a dançar, está tudo estragado.

Depois de um Exquiste Corpse que previa grandiosidades, o quarteto californiano e muito feminino conseguiu o que porventura seria impossível. Excederam-se onde tinham de se exceder e ainda conseguiram fazer algumas coisas para agradar aos que não têm estômago para aguentar o seu pop super-psicadélico.

Assim, em The Fool, os tolinhos são os que olham para as Warpaint como mais uma banda indie e que dizem que os singles são as melhores músicas. E não são pouco tolinhos, não! Não estou a tirar valor às suas músicas mais pop e menos agressivas, mas é precisamente nas demais que estas raparigas mostram o que sabem enquanto compositoras e enquanto intérpretes.

É em Warpaint, a música, e em Bees, por exemplo, que somos conduzidos em experiências de cores diluídas pelas guitarras mergulhadas em efeitos e que o baixo, gravíssimo e cheio de groove, nos leva a acompanhar uma bateria enriquecida nos pormenores com mais do que o corpo. É nestas músicas que vemos, acima de tudo, a faceta principal dos concertos destas raparigas, que estão para o indie como os Mars Volta, no início, estavam para o punk: a explorarem o género através de explorações improvidas bem duradoras.

As suas vozes, revestidas de reverbs e sobrepostas, ajudam, claro, imensamente no ambiente criado e isso nota-se imenso em Shadows, mais negra, quase acústica, e liderada por Emily e Theresa com os seus microfones filtrados. E, claro, a utilização dos delays é indispensável, como se nota em Composure.

Do outro lado temos o single Undertow, que é lindíssimo, Baby, à moda da música que as tornou conhecidas, Billie Holiday, e Lissie’s Heart Murmur, que, para não variar, culmina naquilo que se gosta mais aqui – psicadelismo!!! – e determina mesmo o tom de The Fool como faixa de desfecho. As vozes, as guitarras, o baixo proeminente de Jenny Lee e a bateria riquíssima de Stella, neste crescendo, conseguem resumir muito daquilo que caracteriza a sua música, aliás, característica que também se estende à primeira música do álbum, Set Your Arms Down.

Nesse aspecto, a banda tentou conciliar duas facetas de extremos opostos de uma maneira que se revelou eficaz. O estado de espírito de The Fool deambula com as próprias músicas.

No entanto, nem tudo são maravilhas. Este primeiro álbum parece ser um pau de dois bicos: é uma super-estreia, sim. O que é que vem a seguir? Eu tenho esperança nestas raparigas, portanto avanço para o resto. Apesar de terem as ideias arrumadas, há ainda coisas que não resultam muito bem. Ainda não se consumou completamente neste álbum aquilo que vimos ao vivo em Aveiro. E isso pode ser propositado, mas, mais do que músicas bem feitas e com o feeling certo, a alegria que dá cor as Warpaint ao vivo ainda está semi-escondida.

Obviamente, uma banda do espectro indie que se dedica a fazer músicas sempre com mais do que 4 minutos não joga com o baralho todo: oitos, noves e dez para fora – elas jogam como deve ser. Não há efeitos utilizados que não produzam o impacto certo na música, há imensos delays, toneladas de reverbs… há psicadelismo à moda antiga tocado por miúdas do século XXI.

The Fool é, claramente, um dos álbuns grandes deste ano. As Warpaint tiveram a coragem suficiente para olhar o género indie nos olhos e dizer-lhe “precisas de ir para a guerra, que isso de ser só colorido não te leva a lado nenhum.”