Semicerradas luzes e portas escancaradas. Aula Magna nas cadeiras inquieta, ao sabor de uma “Intro” que, além de amornar os tendões de Theresa, Emily, Jenny Lee e Stella, escreve o prelúdio de “Keep It Healthy”, que de chofre se seguiria. Surpresas não as encontramos; afinal, as Warpaint vieram a Lisboa para destilar o homónimo.

O core business permanece. O sangue das californianas galga ainda, e acima de tudo, duas aortas: baixo e bateria. A cumplicidade que miss Lindberg e miss Mozgawa passeiam, de sorriso genuíno e bamboleio natural, permite às outras meninas uma liberdade que anteriormente desconheciam, mas pela qual ansiavam. Sob a cadência trip-hopish de “Hi”, Wayman e Kokal soltam-se das guitarras, convergindo mimosas atenções para os sintetizadores – estamos em 2014 e as Warpaint não são mais as neo-hippies que em 2010 encheram Aveiro de psicadélica leveza. Quiçá tentando matar saudades desse concerto, onde vários foram os corpos que se entregaram a “The Fool” numa cortês invasão de palco, as norte-americanas lá pedem à Aula para ser menos magna e mais Coachellesque. “Não tenham medo de se levantar e não se importem com quem está sentado atrás de vós”, aconselhaTheresa.

Claro que “Composure” ajuda a que extensa plateia lisboeta se erga parcialmente. Uns fazem-no, outros imóveis permanecem. O ambiente torna-se estanque, meio insípido, desconfortável até. O concerto sofre com isso e, diga-se, “Biggy” ou “Feeling Alright” apenas ajudam a que a pulsação se afaste da taquicardia. Em disco, a sua elegante subtileza não se questiona. Ao vivo… Bem, ao vivo as Warpaint são as Warpaint quando Theresa busca a sua velha amiga Fender Mustang e pintalga “Undertow”. A capital ulula. O que estranho é demora a entranhar e não há  “Love Is To Die” que tenha feitio e força para ameaçar os temas antigos. São eles que agitam o encadeirado público e são também eles que irrigam vertigem dreamy – “Undertow” estende-se minutos além da conta, numa jam que testou amplamente a caixa de velocidades das angelenas. Bonito. Aplaude-se. Aplaude-se mais ainda quando “Billie Holiday” nos asfixia, tamanha é a ternura do cândido uníssono a quatro vozes – pulcra doçura repetida no encore por “Baby”. O clamor logo desce, culpa de “Drive”. Morninha, morninha. Porquê, senhoras, resgatar esta malha e deixar “Teese” arrumada na gaveta? Não se entende.

Sobra-nos a sensação de que “Warpaint”, num tête-à-tête de palco com “The Fool” e o EP “Exquisite Corpse”, perde. Ao invés de prolongar o narcótico bailado, em coreografia desde 2009, a maior parte das novas canções torna a passagem das norte-americanas por Lisboa uma viagem de cumes e vales. Algo entre o fulgor e o requentado. Partilhando talvez essa noção, e sabendo quão importante o efeito latente é, para o desfecho só iguarias nos oferecem: “Bees”, através daquele baixo fuzzy, serpenteando por tudo o que é recanto e fila da Aula Magna, é ainda a melhor coisa que elas já escreveram. Dá para pedir bis? E clonar a Jenny Lee, que a tantas bandas daria jeito? Não? Vá, “Elephants”, de cinco minutos de estúdio transformados em dez de stage, culpa toda de uma embriagante jam, serve bem o propósito de em zénite lhes dizermos adeus. Um até já, que no Optimus Primavera Sound lá estaremos.

Sequin levou companhia para esta sua primeira aventura maior. Ondulante nos seus movimentos, com ganas de virar costas ao sintetizador e ficar una à sua pop de trajeitos 80s, Ana Miró, mesmo com o auxílio de Filipe, quedou-se pelo seu spot inicial. Nervosos tiques, naturais de quem habituada não está a enfrentar tamanha plateia. Ainda assim, as fluorescentes revisitas synth pop, de olhos postos no seu primeiro álbum a editar em Abril, animaram a maioria de quem, àquela hora, já se aconchegava para Warpaint.