Sonhar é preciso, então façamo-lo ao máximo. Este parece ser o mote das norte-americanas Warpaint, que passaram, recentemente, pelo nosso país, para um concerto no Festival Curvo, em Aveiro. Em 2009, estas meninas lançaram o seu EP de estreia, Exquisite Corpse, que as catapultou para a fama e que as ajudou a entrar em digressão com nomes como The Black Heart ProcessionVampire Weekend ou Little Joy. O disco despertou a curiosidade de prestigiantes publicações como a Pitchfork ou como a NME; mereceu a atenção de John Frusciante dos Red Hot Chilli Peppers e colocou este quarteto na rota dos colectivos a seguir. Agora, que se preparam para editar um novo trabalho, desta feita pela mão da renomeada editora Rough Trade (responsável pelas edições de alguns dos expoentes do indie-rock, como Sufjan Stevens ou Belle & Sebastian), vamos mergulhar e conhecer melhor Exquisite Corpse.Não são originais, não são perfeitas, mas há ali, definitivamente, algo que as torna únicas. Os efeitos das vozes (quer das principais vocalistas, quer dos back-vocals), aliadas à bateria bem demarcada, faz com que temas como Beetles não nos saiam do ouvido. As guitarras, essas, são electrizantes, cheias de efeitos dos pedaizinhos das meninas e de reverbs, com riffs que nos fazem cantar baixinho ou girar sobre nós mesmos, como em Elephants. Mas, se há tempo para a festa, há também abertura para uma certa melancolia mascarada de alegria, como em Burgundy, o que enriquece, ainda mais, o EP. E, para mim, é mesmo essa a melhor qualidade deste trabalho: a sua versatilidade e, concomitantemente, a capacidade de nos guiar para ambientes sonhadores, através da distorção e das letras tão femininas, quanto contagiantes.

Por outro lado, as Warpaint têm em Exquisite Corpse uma caixa de surpresas – quando pensamos que uma canção é calminha, como em Stars, lá vem, do nada, a voz e as guitarras inóspitas, rápidas, com alterações rítmicas que, em vez de quebrar o tema, apenas o beneficiam. Porém, a canção supra-sumo do EP é, sem dúvida,Billie Holiday, com os seus dedilhados e vozes sussuradas, que nos entra no ouvido directamente para o coração.

É, então, desta incerteza, aliada a uma estrutura musical sólida, a uma boa produção e a óptimas vozes, com as ideias no sítio, que nos podemos sentar, ouvir e contemplar o corpo estranho, pintado pela tinta desta guerra. Esperemos, agora, o novo álbum.