Não percamos tempo a balizar os VVOVNDS, que eles não são o mais novo peluchezinho tristonho da Church Of Ra. Sim, são belgas; sim, por aí ainda desde há semanas um split com Amenra. Mas as semelhanças terminam nessa fronteira. Adiante, noutro território, está o barraco dos VVOVNDS – encardido, de madeira podre, solto num cinzento planalto à sua porca sorte. Entremos.

O vosso nome, para muitos, é ainda uma incógnita. Portanto, venha daí a pergunta cliché: onde e como surgiram os VVOVNDS?

Jenci [vocalista] e o Kristof [baixista] sentiram que esta terra [Kortrijk] precisava de uma banda rápida. Trocaram umas ideias no verão de 2011, foram à procura de baterista e num concerto dos Blue Note – os antigos Swing Kids -, o Pieter chegou-se ao pé deles e disse que queria entrar. Faltava descobrir alguém para a guitarra; primeiro foi o PJ, depois o Simon, que se estreou logo duas semanas a seguir, em pleno Incubate Festival.

Os VVOVNDS vivem de duas gerações distintas. Não é o paradigma habitual numa banda de hardcore. Há choques de perspectivas?

Há realmente quinze anos de diferença entre o SimonKristof. O elemento essencial passa pelo respeito mútuo. Não há lugar para mentes fechadas. Aprendemos uns com os outros, independentemente se o curriculum deste é superior ao daquele.

O vosso desprezo pelo passado individual é curioso. Mas, observando este tráfico de comparações que é a internet, as pessoas colocavam-nos na caixinha dos Rorschach e dos Void. Os VVOVNDS querem ser de 2014, mas a tentação de quem vos escuta é meter-vos num espaço temporal antigo.

Todos são moldados pelo passado. Cada membro traz as suas histórias e influências para os ensaios. O desafio está em pegar nisso e dar-lhe um nexo, uma coerência. Há quem goste de nos descrever como uns Converge mais rápidos e ruidosos – mas sentimos que essa comparação surge pela ausência de uma referência melhor. Não renegamos a influência do catálogo da Youth Attack, mas há nos VVOVNDS quem seja, por exemplo, um grande adepto dos Combatwoundedveteran – cujo último disco data de 1999.

E há um papel específico no hardcore que os VVOVNDS querem assumir? Quiçá fazer uns testes de esforço ao género, só para saber até onde ele poderá esticar sem se romper?

Apesar de o quebrar de fronteiras não ser um dos nossos objectivos centrais, sentimos hoje que começamos a deixar uma impressão em que nos escuta. Afirmar que estamos a deixar uma impressão digital clara seria demasiado – mas o facto de haver gente que não nos consegue descrever, aliado à presença em festivais como o Amplifest, assegura-nos de que estamos no caminho certo.

Vocês proclamam-se “negative hardcore”. De onde surge esse epíteto?

O negativismo nasce do trabalho, da humanidade, de nós. Há imensa coisa a correr mal neste mundo e os VVOVNDS lidam com os demónios interiores e exteriores – aqueles que, diariamente, nos provocam, entristecem e irritam. Levamos a vida dia a dia, música a música.

Estão a aproximar-se de um outro público, agora que o vosso split com os Amenra está aí. Falem-nos dessa ligação.

Kristof esteve na fundação dos Amenra – criou a banda juntamente com o Colin e o Mathieu, em 1999. Ele é bastante próximo do Colin e, no verão passado, começaram a falar de um hipotético split 7” entre os Amenra e os VVOVNDS. A coisa evoluiu para o split 12” editado pela Hypertension Records; que, sim, nos tem exposto a um público maior, sem com isso estarmos a comprometer o nosso som. Não está de todo mais acessível.

Os Amenra alteraram o statu quo da cena europeia, particularmente no capítulo visual. O logo, o merch, as projecções – são raríssimas as bandas cujos esforços se dividem quase simetricamente entre música e design. Há quem lhes chame pretensiosos, até. Os VVOVNDS estão também nesse barco artístico, preocupados com a imagem?

É, sem dúvida, um factor importante. Apesar de o Kristof ter inicialmente feito todo o nosso artwork – desenhou o logo de VVOVNDS e o trípode de Amenra – recentemente começámos a explorar nomes externos à banda. Artistas talentosos como RamskopWard Zwart trabalharam visualmente no repressdo nosso 10” e em algumas t-shirts; apesar de serem designers bastante distintos, ambos capturaram a iconografia dos VVOVNDScom precisão. Tínhamos o objectivo de colaborar com o Tom Vanuytrecht há muito e ficámos satisfeitos ao saber que ele se encontrava a trabalhar no artwork da série “The Abyss Stares Back”. Estamos fascinados com a estética desta sequência de splits – a fotografia e o encarte de cada capítulo são incríveis.

De forma inevitável, as pessoas generalizam. Numa era em que os Oathbreaker e os Hessian andam a redefinir o hardcore belga, vocês não temem, apesar das óbvias diferenças, serem enfiados na mesma gaveta?

Não tentamos ser parecidos a outras bandas ou sequer perdemos tempo a aproximarmo-nos de uma nicho em específico – apenas fazemos a nossa cena. Esse é o motto. Sempre colocámos o punk hardcore e o powerviolence como o nosso ponto de referência. Tocamos música rápida com um atitude puramente vai-te foder. E, apesar de a maior parte das bandas da Church Of Ra se distanciarem do nosso estilo, percebemos que haja similitudes noutros níveis. As pessoas adoram ou odeiam a C-O-R, mas, no final de contas, todos esses projectos são compostos por gente muito talentosa que merece toda a atenção. Se nos incluem na mesma caixa que essas bandas, então sentimo-nos lisonjeados.

Quanto aos concertos, como os VVOVNDS encaram a plateia? Querem saber dela? Gostam de criar tensão e confronto? Lutam contra a passividade?

Não ligamos muito à tensão e ao confronto. Tentamos apenas dar o máximo a cada concerto – haja vinte ou duzentas pessoas adiante. Tocamos 25 minutos, mas tocamos como se eles fossem os nossos últimos 25 minutos de vida. É sempre bom, no final, haver gente que se aproxima e nos diz que o nosso gig foi muito intenso – algo cada vez mais recorrente nos últimos meses.

Vem aí o vosso primeiro LP, certo? Há detalhes? O Amplifest vai ouvi-lo?

Estamos a trabalhar nele, mas ainda sem prazo limite definido. Queremos escrevê-lo sem qualquer barreira ou preocupação. E, sim, dele vamos tocar, pela primeira vez, duas músicas no Amplifest.