Foi numa noite chuvosa que uma nave espacial, provinda do Canadá, viria aterrar em Portugal, mais concretamente,no Cine Teatro de Corroios. Depois da estreia no nosso país o ano passado, na XIV edição do SWR Fest de Barroselas, os Voïvodestavam de volta, desta vez num concerto em nome próprio, para provar que mesmo já na marca dos 30 anos, a banda oriunda do Quebec ainda mexe.

Muito possivelmente devido à chuva, a chegada à entrada do Cine Teatro foi um tanto semi desoladora, devido à escassez de publico, prevendo uma casa vazia – isto tendo em conta os “standards” de capacidade da sala de Corroios. À entrada, a sala algo vazia confirmava as suspeitas, mas assim que a intro do set de Concealment brotou das colunas, foram olhos postos no palco apenas. Um pequeno aparte, a título pessoal neste caso, foi o facto de estarem presentes comigo as pessoas que de certa forma me deram a conhecer e contribuíram para o meu fascínio e admiração sobre a banda canadiana, que se viria a reflectir, acima de tudo, no meu percurso musical. E, nesse grupo de pessoas, não poderiam faltar os Concealment. Conhecendo e acompanhando de perto a banda de Sintra, foi de uma grande satisfação e orgulho vê-los merecidamente abrirem a noite, ora não fosse Voïvod uma das referências do som – especialmente nas dissonâncias arrancadas da guitarra de Filipe Correia – monolítico e singular dos Concealment.

Com a presença humilde de sempre, e um som razoável, percorreram um set focado especialmente no seu segundo album, Phenakism, editado o ano passado. Malhas como HamartiaDeluge e Orifice, com passagem ainda pelo primeiro álbum Leak, na foram de Long for Flesh e Volutions, viriam a deixar muitos de queixo caído, com a precisão, técnica e destreza do trio. Para quem já os viu, não é nenhuma surpresa a dita reacção, mas, por muitas vezes que os vejamos, é difícil deixarmos de ficar surpreendidos ora por uma passagem mais técnica na guitarra, um apontamento certeiro no baixo ou mesmo os ritmos complexos da bateria, tocados com a descontracção evidente na cara de David Gerónimo.

Curiosamente, a banda sonora escolhida, enquanto o palco era preparado para os canadianos, fez-se na forma de Dark Side of The Moon dos Pink Floyd. Us & ThemBreathe suavemente… E eis que o despertador de Time ecoa pelas colunas, apagando as luzes e deixando soar as passadas do monstro metálico que viria tomar conta do palco. Snake, Away, Blacky e Chewy tomam o palco, a guitarra emite o “zumbido” característico e, ao mic, Snake dava o mote…”VOÏVOOOOOD”! Faixa homónima e emblemática do primeiro álbum, War & Pain, com um Cine Teatro muito mais composto a berrar o refrão, logo seguido por Ripping Headaches do segundo álbum Rrooooaaaarrr. Com doze discos na bagagem e um décimo-terceiro a caminho, a banda apresentou um setlist equilibrado, percorrendo quase todas as suas fases, incluindo o mal amado álbum Angel Rat com a faixa The Prow, assim como malhas como Forgotten In Space, Nothingface, Physic Vacuum e algumas (interessantes!) faixas (Mechanical Mind, por exemplo) do novo registo Target Earth, a sair em 2013. Claro que os pedidos especiais, por parte do público, recaíam sempre para faixas mais antigas, mas, independentemente disso, o set revelou-se bastante coeso com um som acima da média. Atrás da bateria, era visível a satisfação na cara de Michel Langevin aka Away, com a sua bateria sempre a la MotörheadJean-Yves Thériault aka Blacky cheio de genica munido do seu baixo de look bem old school; DenisSnakeBélanger com a idade já a pesar sobre a voz mas sempre com o seu carisma; e o novato Daniel Mongrain na guitarra a recriar, nota por nota, o legado deixado pelo seu antecessor: o incontornável DenisPiggyD’Amour, falecido em 2005.

Dando o seu concerto por terminado, a banda volta para o encore, com Away a soltar a batida tribal da tão esperada Tribal Convictions do album Dimension Hatröss. E de um ícone musical para outro icone musical, Astronomy Domine, cover dos Pink Floyd, eternamente dedicada a Piggy, dá por finalizado o concerto. Numa carreira na marca dos 30 anos, por vezes ainda associados ao género thrash metal que tão cedo renegaram, e depois de um período conturbado nos anos 90, seria questionável para alguns a longevidade da banda; bem como a qualidade dos últimos álbuns, quando comparados com a sua fase mais prolífera (de 84 a 89), e da influência que criaram em apenas cinco álbuns em cinco anos. Influência essa inquestionável, presente em bandas como Virus, Ulcerate, Alchemist, Knut, Neurosis, Cryptosy e muitas outras de índole musical mais dissonante. Possivelmente, no futuro, os Meshuggah serão confrontados com o mesmo dilema, mas por agora, resta respeitar o legado e esse permanece… Sempre.

“Use the killing technology
How can I destroy the enemy
Security plans are not easy to find
That’s my generation, the nonsense time”