20h, filas imensas para trocar pulseiras (a percorrer umas boas dezenas de metros), circulação massiva pela Avenida da Liberdade, uma quantidade imensa de espaços musicais reais (como o Coliseu ou o São Jorge) ou improvisados (como a Casa do Alentejo ou a Estação do Rossio) começam a receber público… enfim, o costume nesta altura do ano. Sejam bem-vindos a mais uma edição do Mexefest, o peculiar Festival de Inverno.

Com 26 concertos espalhados por seis horas do primeiro dia (o segundo não é muito diferente), por vezes com sete ou oito em simultâneo, pode-se definir um percurso, ainda que sujeito a mudanças, ou andar ao sabor do vento. A viagem que se descreve de seguida é uma possível entre muitas outras, com a análise a sete concertos em cinco espaços distintos, entre o calor latino, os fantasmas do pós-punk mais negro ou um ritual performativo quase marcial.

Começámos no São Jorge com a parte final do concerto dos Juba, garage-rock feito em Portugal, com algumas reminiscências da cena Coimbrã dos Tedio Boys e derivados. Belas guitarradas e uma atitude interessante, entre uns devaneios psicadélicos e uns momentos arrastados, que mostram que, para o bem ou para o mal, há mais do que um descomprometido som sujo e directo. Terminaram marcando encontro com o público nas primeiras filas de Wavves, que tocariam mais tarde e que são uma natural influência dos Juba. Com o disco de estreia, Mynah, acabado de lançar, são uma banda para seguir com atenção.

Após o ponto final dos Juba, altura para o percurso mais longo da noite, descendo até à Casa do Alentejo. É o momento de ouvir Combo Nuevo Los Malditos, um verdadeiro super-grupo de músicos portugueses, provenientes de Orelha Negra, Cais do Sodré Funk Connection, Cacique’97 ou Assessores, a que se junta o vocalista cubano José Debray, com um estilo entre o místico e o parolo. Passamos pelo jazz, pelo funk e sobretudo pelas sonoridades latinas, do Panamá a Cuba, com sopros viciantes, um baixo quentinho ou uma percussão irresistível. De um ponto de vista redutor, pode ser apenas uma banda de covers de temas e estilos latinos, mas o que faz a diferença é a classe e um grooveimensos. Música perfeita para aquecer a alma e o corpo numa noite gelada.

Passar dos ritmos quentes na Casa do Alentejo para a parte final do concerto de JP Simões na Estação do Rossio, ao frio e com muito pouco público, soa necessariamente a um desconfortável fade-out. Até porque, pese embora o lado mais desconcertante das suas performances, é música para um espaço mais acolhedor. Ao contrário da big-band que o acompanhou em Sines, JP tocou no Mexefest em trio, com mais uma guitarra e um trompete. Não podia faltar a comunicação sempre excêntrica com o público, saudando a chegada da cerveja, dedicando um tema à Sexta-Feira (possível candidato presidencial?!) e “A Marcha dos Implacáveis” aos zombies (é óbvio não é?). Nada mais indicado quando a letra refere “ Chove sangue no Rossio”. Enfim, foi a substituição possível de John Wizards.

De seguida, chegou a estreia do Coliseu no Mexefest, substituindo o Tivoli como um dos palcos principais. Se a troca cria uma distância maior entre os dois palcos principais (o outro é a sala grande do S. Jorge), percebe-se facilmente que há uma grande vantagem: o Coliseu é muito mais apropriado para espectáculos de grande dimensão. Assim, há um público muito mais numeroso e um conforto que seria impossível de existir no Tivoli. Numa noite de estreia marcada por fantasmas, o primeiro é o de Siouxsie Sioux, reencarnada na actualidade por Jehnny Beth, a vocalista francesa dos londrinos Savages. Não há um pingo de luminosidade na música que se ouve em palco. Em vez disso,”Shut Up” ou “She Will” apresentam-nos claustrofobia, negrume e tensão, muita tensão, na bateria incessante, nos devaneios de guitarra ou na postura provocante, mas simpática, de Beth. Aliás, para quem teve um mau dia, os Savages dedicam  “Fuckers”. “Don’t Let The Fuckers Get You Down”, ouve-se na letra. Fica a ideia que o espaço é demasiado grande para este registo (ou houve pausas em excesso) e talvez seja por isso que não existiu o efeito assombroso que, aparentemente, provocaram no Primavera Sound, em Maio passado. Mas, dentro do revivalismo pós-punk mais escuro, os Savages continuam a marcar pontos.

No interlúdio dos dois concertos do coliseu e abdicando, por questões de tempo e distância, de verificar como é que John Grant juntou em concerto o lado mais acústico de Queen of Denmark com a toada mais experimental de Pale Green Ghosts, o percurso dividiu-se entre a Casa do Alentejo e o Ateneu. No primeiro espaço, continuaram as sonoridades latinas, desta feita, de uma forma mais urbana, com a argentina La Yegros. O lado orgânico da cumbia, com a concertina em inevitável destaque, junta-se neste projecto de fusão a alguns elementos electrónicos. Interessante, mas com nada de novo, especialmente para quem, num campeonato semelhante, viu este ano, em Sines, os belíssimos Bomba Estéreo. Em simultâneo, os Wavvesincendiavam o Ateneu com um rock sujo, mas em que cabem alguns elementos surf bem interessantes. Ao contrário dos Japandroids, com uma aproximação ao punk-pop francamente duvidosa, percebe-se mais facilmente como é que a banda californiana teve algum hype. Pena que, tocando num pavilhão gimnodesportivo antigo, a acústica não fosse a melhor.

O fecho do primeiro dia deu-se com um novo fantasma no Coliseu. Depois de Siouxsie foi a vez da sombra de Antony Hegarty aparecer em Lisboa. O seu sucessor é francês, chama-se Woodkid e, para além das semelhanças vocais óbvias, estas estendem-se ao estilo musical. Há um dramatismo épico e quase operático, desencadeado pelos músicos que o acompanham, seja o peso dos trompetes e do trombone, na percussão quase militar ou no lado mais austero e duro das luzes minimais e das projecções a preto e branco. Uma coisa é absolutamente notável: a forma como o músico conseguiu alternar, em poucos segundos, momentos mais solenes e melancólicos com outros em que, de forma natural, manipulou autenticamente o público, pondo-o a saltar ou a bater palmas como um bando, como sucedeu no encore com a versão prolongada do single “Run Boy Run”. Há uma certa obsessão pela ordem que causa incómodo, como se estivéssemos a assistir à banda-sonora de um golpe militar ou de um movimento fascista. Contudo, se a coisa não tiver nenhum traço ideológico e se cingir à parte artística, com um nível performativo impressionante, é difícil não dar valor ao que provém do palco. Uma hora e meia depois do início, bem mais do que os 50 minutos previstos, fica a convicção de que se assistiu ao concerto da noite.