Foi por volta da hora do jantar que a Roda do Choro de Lisboa actuou no Starbucks. O chorinho brasileiro é inevitavelmente o ponto de partida, mas, pelo meio, o projecto nacional junta de forma hilariante klezmer, portugalidade ou até património clássico. Resulta bastante bem ao vivo, não só pelo interesse das fusões e pelas surpreendentes e valiosas variações rítmicas no interior dos temas, mas também pelo lado de entertainer dos músicos, vestidos a rigor (de preto e branco, com um imponente chapéu) e com um apurado sentido de humor. No meio de um cocktail sonoro diverso, há lugar para uma versão quase 100% instrumental de Carinhoso(tema interpretado em estúdio por Sérgio Godinho), porque, segundo os próprios, eles não sabem cantar.

Portas de Santo Antão, sábado à noite: corrupio interminável, provocado por um choque de gerações. De um lado, as tunas. Do outro, os amantes dos musicais de La Féria. Pelo meio, tipos que nos tentam convencer a jantar no seu restaurante, dealers e…Nicotine’s Orchestra. No andar superior da Casa do Alentejo,Nick Nicotine trouxe até à outra margem o seu projecto cunhado no Barreiro e apetrechado de valências blues e, inegavelmente, rock. Num local que recebeu, na sua maioria, actuações tranquilas, os portugueses foram a pedrada no charco e agitaram o soalho e alicerces do edifício com o seu recente e contundente Gipsycalia.

Numa húmida e fria noite, adornada por uma cortina de fumo provocada por vendedores de castanhas que parecem trabalhar vinte e quatro horas por dia, os Petite Noir passaram infelizmente despercebidos. Apesar de o Ateneu Comercial de Lisboa ter uma das piores acústicas do festival – tanto, tanto reverb -, o projecto de Yannick Ilunga enfrentou sem temor as adversidades e deslindou uma electrónica feita de traços experimentais e um piscar de olho ao trip-hop e ao down beat. Filho de mãe angolana, Ilunga foi um dos senhores do segundo dia do Mexefest e não é de admirar que os Foals nele tenham pegado como primeira parte da sua recente tour de Outono.

Fosse para ver o músico britânico ou para guardar lugar paraDjango Django, foi imponente ver um Tivoli tão cheio para ver Michael Kiwanuka e tantas dezenas de pessoas à porta sem conseguirem entrar.  O novo menino bonito da soul aborda os temas com a alma negra tão característica, mas é por vezes traído por arranjos demasiado convencionais e easy-listening, a fazer lembrar, a espaços, um Ben Harper. Parece faltar groove ou qualquer coisa que liberte os temas e os leve para outras paragens. De qualquer das formas, não deixou de impressionar muito do público presente, nomeadamente quando decidiu fazer uma homenagem ao grande Jimi Hendrix.

Depois de extraordinários álbum, EP e banda-sonora de José e Pilar, Noiserv tinha praticamente desaparecido do universo mediático. No concerto do Mexe, Mr. Carousel  ou Bullets on Parade  bastaram para que recordássemos as maravilhas que saem da cabeça de David Santos, com uma construção melancólica em que tudo parece criteriosamente pensado. Loops de guitarra, sons simples do quotidiano, xilofones deslumbrantes e uma voz grave absorvente complementam-se na perfeição e em crescendo, algures entre o bucólico e o urbano-depressivo. E, para que a dimensão do sonho seja reforçada, o lado musical é fundido com as ilustrações ao vivo de Diana Mascarenhas, que parte de um túnel ferroviário para conteúdos muito diversos e naïve, de encontro a um certo lado infantil que também existe no imaginário de Noiserv. Pelo meio, entre umas algo excêntricas reflexões sobre o nada ou sobre o fumo, David Santos revela nervosismo e uma certa simplicidade despretensiosa, em contraste com a arrogância de alguns músicos da nossa praça, muitos deles bem menos interessantes. Saída da sala no final de uma versão um pouco mais contida de Consolation Prize e a certeza porém que, caso o resto do concerto tenha sido idêntico, este terá sido um dos momentos mais bonitos e emotivos de todo o festival.

A reputação e o passado contam muito, nestas andanças. Ter sido fundador dos The Smashing Pumpkins e ser, ainda, membro dos A Perfect Circle vale bastante, mas também não assim tanto quanto à primeira vista se poderia pensar. Com um público dividido por tantos outros espaços, James Iha não conseguiu sequer colocar a Casa do Alentejo a meio gás e, os que por lá marcaram presença, também não pareceram convencidos com a pop rock trivial apresentada pelo veterano. Acordes burocráticos, malhas insonsas e uma actuação onde a simpatia de Iha foi o que de melhor se reteve.

Entretanto, no Tivoli, os Django Django apresentam quase na íntegra o disco homónimo de 2012 e confirmam serem uma das bandas mais desejadas pelo público, não só por aqueles que estiveram presentes, mas também pelas inúmeras pessoas que ficaram à porta. Se os Alt-J parecem ainda algo verdinhos ao vivo, estes seus compatriotas parecem ter a atitute fresca, descomprometida e viciante de um projecto em início de carreira.

Pena foi que o teatro não seja o espaço certo para acolher uma banda tão festiva e que o som estivesse tão caótico, muito abafado, sem que se distinguissem devidamente os vários instrumentos e com a voz a ser praticamente inaudível. Ainda assim, foi um festão, porque temas como Default ou Waveforms, entre a folk, o psicadelismo e a pop mais eufórica, são verdadeiras pérolas dançáveis. Houve direito a um encore, com o mais experimental Silver Rays, terminando assim um espectáculo que definitivamente não deixou ninguém parado. Mas se assim foi, imagine-se os Django Django num espaço apropriado e com um som impecável…

Com um atraso considerável em relação ao previsto, o palco da Estação do Rossio sofria ainda, perto das 23:30, a debandada geral depois de Batida. O show do projecto de Pedro Coquenão deixou efeitos secundários para The Very Best, cuja união entre os electrónicos subsolos de Londres e a abordagem africana provinda do nascido no Malawi Esau Mwamwaya não conseguiu atingir os extasiantes níveis dos Batida – que receberam os justos elogios do trio inglês. A música dos The Very Best transpareceu-se esquizofrénica em demasia e, apesar de satisfeitos por estarem em Lisboa (o guitarrista surgiu corajosamente em trono nu), o concerto não passou de razoável.

O calendário recebia já de braços abertos o dia 9 de Dezembro, quando os Light Asylum vilipendiaram o Ateneu. Synthpop animalesca, adornada por uma densa e obscura presença de palco, onde a vocalista Shannon Funchess vociferou e exigiu de Lisboa o máximo. Os sintetizadores estremeceram as tabelas de basquetebol, e o disco homónimo do duo norte-americano, editado este ano, andou perto de abrir fendas no edifício.

Embora, tal como o anterior Magic Chairs, Piramida não seja propriamente um grande disco, faltando toda a grandiosidade triste do passado, ficava a curiosidade de saber como seria este novo espectáculo dos Efterklang em Portugal, dois anos depois de terem passado pelo Musicbox. Não só para se perceber como resultariam ao vivo os novos temas, mas também para averiguar se haveria regressos ao passado dourado de Tripper e Parades. Contudo, tal não foi possível. A sala do São Jorge estava cheia e a organização decidiu, no seu tradicional freestyle, mudar as regras e vedar a entrada também a repórteres. Mais uma demonstração de apreço da Música no Coração pelas pessoas… nothing new in the western front.