Quem se lembra de, há 2 ou 3 anos atrás, ver Samuel Úria a solo em pequenos showcases, não pode deixar de destacar o crescimento que o músico teve. A postura arty e o discurso excêntrico não terão mudado assim tanto, mas, no concerto do Mexefest, Úria teve a companhia de uma banda numerosa, um coro misto e alguns convidados, desde logo dois elementos d’Os Pontos Negros. Se esse crescimento teve os mesmos reflexos na qualidade musical, isso já é coisa bastante menos consensual.

No universo actual de Úria cabe diversidade quanto baste, com instrumentos como o banjo (tocado pelo próprio) ou violino e estilos como o blues, o gospel ou uma pop mais pretensiosa. Mais interessante em alguns momentos de maior catarse sonora ou no inqualificável Não Arrastes o Meu Caixão, algures entre o tango, as guitarras dos Dead Combo e outros rumos agradavelmente desconhecidos.

Bastante mais duvidoso em espaços compostos por teclados demasiado açucarados (alguém falou em Andre Sardet?) e nos duetos com Miguel Araújo (Os Azeitonas) e Márcia, que, com a sua voz dormente, emociona uns enquanto irrita profundamente outros. Com o Tivoli num crescendo de público, um concerto irregular a servir de aperitivo para os Alt-J.

Não será precipitado dizer que o concerto de Alt-J era o mais aguardado do dia de ontem e, provavelmente, de todo o festival. Em poucos meses, a banda britânica conquistou um hype tremendo que fez com que o espaço do Tivoli fosse pequeno demais para todos os interessados (muita gente ficou à porta).

O concerto não foi perfeito… o som esteve demasiado grave, a voz de Joe Newman patinou um pouco (facto particularmente evidente em Bloodflood) e a comunicação do teclista com o público do teclista foi praticamente inaudível. Contudo, nada suficiente para prejudicar a fundo o que se ouviu em palco. Aliás, o público esteve, praticamente desde o primeiro tema (Intro), completamente rendido à magia sonora dos Alt-J. Musicalmente, as flutuações rítmicas de Flitzpleasures e Breezlecocks revelaram-se inebriantes,Something Good e Dissolve Me são temas extraordinários e, pese embora faltar percussão ao segundo, não poderiam correr mal, e saúda-se do fundo da alma a estreia ao vivo do novíssimo Buffalo, com a melancolia da lindíssima guitarra incial a ser tão arrepiante como em estúdio. Por outro lado, apesar dos problemas pontuais já destacados, a voz de Newman preserva a chama e a alma próprias e é imponentemente acompanhada pelos seus companheiros no a capella Interlude I. Seguiu-se o tom dramático dos teclados de Tesselate e a junção dos dois temas foi previsivelmente um dos momentos altos da noite.

No encore, as vertentes poética e oriental de Taro, uma das peças musicais mais notáveis de 2012, conjugaram-se na perfeição num final que não deixou grandes dúvidas. Os Alt-J podem estar ainda um pouco verdinhos, mas nem por isso o que se ouviu no Tivoli deixou de ser bem bonito.

Torneado por uma das mais volumosas parafernálias de todo o festival – amplificadores amiúde, cavaquinho, violino e afins –Manuel Fúria entrou no palco principal do São Jorge cerca de vinte minutos depois da hora prevista, acompanhado pelos seusNáufragos. A toada bucólica, de pés firmes e assentes nos campos portugueses – no palco estava também uma pintura naturalista – agarrou aqueles que não se quiseram aventurar pelas intermináveis filas de Alt-J e levou-os pelos lírios que o músico tanto contempla. Apesar do pedido para “não se irem já embora”, o Mexefest não apela a concertos inteiros e, lá para os lados das Portas de Santo Antão, havia mais para ver.

Christopher Owens trouxe duas girls (num coro), mas não Girlsper se. Depois de extinguir a parceria com Chet “JR” White, o vocalista dedicou-se às aventuras a solo, aventuras essas que em palco se convertem numa banda de oito elementos. Ora sentado, ora de pé, Owens foi apresentando aquilo que será Lysandre, o seu primeiro álbum em nome próprio, a ser editado no mês de Janeiro. Com base naquilo que se escutou, é difícil afirmar que seja algo muito distinto da plácida música que o seu grupo trouxe para a mesa com Album e Father, Son, Holy Ghost – mas, verdade seja dita, coadunou-se com o belo e antigo espaço da Casa do Alentejo, de candelabros suspensos e espelhos circundantes.

Como cartão de visita, os The 2 Bears trazem o facto de este ser o projecto paralelo de Joe Goddard dos Hot Chip. A sensibilidade pop da banda britânica dissipa-se neste duo, mas nem por isso Be Strong, o álbum de estreia, deixa de ter diversidade suficiente dentro do universo mais vasto da música de dança e não só. No Ateneu, o que se ouviu foi bem diferente. Salvo opiniões mais especializadas e conhecedoras (quem escreve estas palavras não é fã de muitos meandros da música electrónica), um DJ set algures entre o house e o techno pesadões, de uma gratuitidade dançável própria de discotecas pouco entusiasmantes.

Um dos bons concertos do primeiro dia do Mexefest estaria guardado para a Estação de comboios do Rossio. Com uma grandiosa vista para o Castelo de São Jorge, o palco semi-open air recebeu o soul de Cody ChesnuTT, norte-americano que transpira aquela boa vibe que cai que nem ginjas num festival deste género. Embalado por Landing On A Hundred, um dos belos discos de 2012, o concerto de ChesnuTT muniu-se um groove cheio de southern feeling e fez-se das tão tradicionais interacções com o público – fosse através da infindável repetição de refrões, fosse através do estalar de dedos, o homem de Atlanta nunca deixou de olhar fixamente para Lisboa, transcrita numa numerosa plateia. Não fosse o som excessivamente alto (característica do palco, que se manteve pelo fim-de-semana) e o show poderia ter sido ainda melhor.

Galgando novamente a Avenida da Liberdade, encontrámos Little Boots no São Jorge. Estranho? Estranho. A dançante electropop de Victoria Hesketh, segundo as palavras da própria, nunca tinha passado por um cinema ou teatro. Faz todo o sentido. Pouco nexo teve o seu concerto num sítio onde as cadeiras retiraram espaço e dividiram a plateia entre aqueles que preferiram ficar sentados e aqueles que em pé se balançaram. Talvez tivesse corrido melhor, e de maneira menos awkward, num Ritz Clube ou no Rossio. Assim foi só estranho – perguntem àquele segurança que se mostrou triste por quase obrigar a primeira fila a sentar-se.

Considerado um dos projectos mais refrescantes e peculiares da música portuguesa actual, os Gala Drop misturam psicadelismo e tribalismo de uma forma experimental, cósmica e criativa. Em palco, a música é guiada por um baixo poderoso, pelo frenesim da bateria, pelos sintetizadores misticistas e alienantes, pelo impacto das percussões étnicas e por uma voz pontual a remeter para o lado mais misterioso da Jamaica, num wall of sound demolidor. Houve alguns problemas técnicos, como o reinício de um tema por problemas de munição da banda, mas, da parte do concerto que se ouviu, nada capaz de retirar corpo às notáveis viagens em crescendo que, de forma subliminar, cada proposta musical apresenta. Fica apenas uma pergunta, num contexto de problemas de gestão de espaço comuns à edição do ano passado: porquê deixar tanto público à espera quando a sala do cabaret Maxime estava longe de estar cheia?