As visitas frequentes dos Anathema a Portugal trataram de lhes conferir um carácter de cumplicidade com o público que não deixa de ser pouco comum. A vertente acústica, mais próxima e directa, fez com que a comunhão com os irmãos Cavanagh fosse ainda mais evidente. O Musicbox esgotou, e, à partida, já tinham a noite ganha. Tema após tema foram conferindo êxitos sucessivos. Logo com as duas partes de Untouchable se percebeu que a noite não lhes iria escapar e a proximidade era absoluta.

Os britânicos são o tipo de banda que terá acompanhado o crescimento da maior parte dos presentes na sala, e, apesar dos devaneios e das mudanças constantes de rumo musical que, com maior ou menor qualidade, têm operado, é inquestionável que continuam a desfrutar de uma certa ligeireza e sobriedade que utilizaram para ir encantando ao longo de mais de duas horas.

Este tipo de apresentação que os irmãos se encontram a promover acaba por não se distanciar muito do que vêm fazendo em disco, em especial no mais recente Weather Systems. Talvez por isso, a diferença que se sentiu foi, de facto, o intimismo e a interacção que trataram de conciliar a cada nova música.

Danny com a sua viola acústica e Vincent com a guitarra eléctrica, iam percorrendo o seu legado discográfico. Com Thin Air,Judgement ou Forgotten Hopes, mostraram que, se um parece dominar mais o instrumento, o outro terá uma voz mais propícia e encantadora. E, esse factor ficou comprovado quando Daniel Cardoso, o agora membro dos Anathema, subiu ao palco para ao órgão compor Dreaming Light. Embora estivessem audíveis a guitarra e as teclas, foi a voz de Vincent que ocupou o pódio e lhe conferiu total forma e genuinidade.

Ainda antes da passagem às versões, os Cavanagh trataram de recordar Lost Control, Angelica e Hope dos longínquos discosAlternative 4 e Eternity. Mas foi com esta última que Vincent disse uma das grandes verdades. Assim, apresentando a malha como uma ‘canção feliz sobre a mortalidade’, tratou de definir a maior parte dos temas dos Anathema: não produzem composições felizes, mas em todas elas se consegue encontrar conforto, leveza, beleza e, claro está, felicidade. Estranha dicotomia esta.

A versatilidade também foi um elemento preponderante neste evento e a prova disso foi a versão de Wasted Years dos Iron Maiden ou a pequena folia com Easy Like Sunday Morning de Lionel Richie. Com Another Brick in the Wall e High Hopes dosPink Floyd, voltaram a conseguir gerar o entoar das letras. Factor que se repetiu, na verdade, em quase todos os momentos, mas que ganhou contornos mágicos com Fragile Dreams e com a últimaThe Beginning and the End.

Danny e Vincent surgiram em Lisboa com uma coesão e solidez invejável e, se o irmão mais velho apresentou o rebento mais ‘jovem’ como ‘a pain in the ass’, resta desejar que continue a ser assim e que persistam a proporcionar momentos bonitos como conseguiram nesta noite.