Há momentos em que a sabedoria desportiva faz sentido fora do seu domínio. Em relação a At The Cut, pode-se dizer sem qualquer hesitação que “na equipa que ganha não se mexe.”

O North Star Deserter, lançado em 2007 pela mesma editora que coloca agora o selo em At The Cut, a canadiana Constellation, foi fruto de uma combinação surgida muito por acaso, quase que por brincadeira. Foi um óptimo fruto, arrojado desde o momento em que se pensou: ao calejado Vic Chesnutt juntavam-se músicos dos Silver Mt. Zion (Jessica Moss, Thierry Amar, Efrim Menuck) e o mítico Guy Picciotto, guitarrista dos Fugazi. São nomes que à partida não ousaríamos juntar, mas assim que os vemos todos seguidos, de uma só vez, não estranhamos nem pensamos duas vezes – admitimos que só pode sair coisa boa.Aposta esta que não é isolada, na Constellation. Do Country, ou de géneros semelhantes, este já o segundo nome que, já de carreira feita, cede aos encantos de Montreal e dos nomes mais sonantes que associamos à capital do Quebec. Falo, claro, de Carla Bozulich, que edita o seu terceiro álbum seguido com o selo desta editora, levando a sua música para fora dos EUA, literalmente: o Country teve o seu tempo, agora é o Noise e uns Evangelista muito suis generis.

Repetindo a ideia base: para At The Cut, tudo se manteve. Melhor, apurou-se uma fórmula que roçou a perfeição dois anos antes. A tristeza que uma só guitarra acústica consegue, em esforço, carregar, é intensificada por uma parelha de instrumentos que encaixa de forma arrepiante na música de Chesnutt. Nada está a mais e nada é demais; cada distorção, cada bateria, cada gemido do violino está para a música como as letras do americano estão para as suas melodias – a qualidade essencial de uma boa canção, em boa verdade.

A abertura do álbum, feita por Coward, seria quase um resumo do que se pode esperar de At The Cut: a calma arrepiante da voz de Vic Chesnutt, acompanhada suavemente, até ao seu primeiro gemido, ao seu primeiro grito, onde a música rebenta e cresce, para terminar em When The Bottom Fell Out, a segunda faixa – por si mais calma, mais relaxada.

Este não é, realmente, um trabalho monocórdico, mas seria injusto não lhe reconhecer alguma linearidade. Isto é, tem as suas mudanças de intensidade, os seus swings de humor, e vive muito disso, mas insere-se sempre na mesma linha, na mesma fórmula – e não deixa de resultar. Não será um erro, nem tampouco precipitado, questionar se estas músicas alguma vez resultariam fora desta colaboração. É difícil ver as coisas de outra forma, descontextualizar este alinhamento desta “equipa,” recuperando-se o adágio desportivo, apesar de a sua participação neste álbum ser mais comedida do que no anterior, mais subtil, mas nem por isso menos fundamental. As músicas estão dependentes não só do seu compositor, Vic Chesnutt, mas igualmente de Guy Picciotto e dos músicos de Silver Mt. Zion. Ainda bem: têm o seu tempo e fazem todo o sentido assim, mas não deixa de ser uma hipótese quase desagradável, retirar-lhes os seus músicos e, por conseguinte, o seu sentido.

A esta ideia pode-se extrair Granny. Esta música é do Vic Chesnutt, cantada pela sua guitarra e pela sua voz, só e apenas. E resulta, uma vez mais. Há mérito, e há que agradecer a Michael Stipe, dos REM, por ter decidido gravar um álbum de Vic Chesnutt, o vagabundo, o sem-abrigo, antes deste morrer. Provavelmente salvou-lhe a vida e trouxe-nos uns quantos álbuns dignos de serem ouvidos. At The Cut é mais um desses.