Coube aos portugueses Revolution Within dar início à edição de 2011 do Vagos Open Air. Contudo, devido ao tempo habitual que se perde na viagem em direcção ao recinto de um qualquer festival, e ainda pela necessidade de levantar credenciais, quando finalmente conseguimos entrar no recinto este grupo já tinha terminado a sua actuação. Fica, no entanto, a partir da análise do cartaz para este dia, a ideia de que a generalidade dos momentos mais agressivos ficou nas suas mãos – eles, que apresentaram uma música nova, intitulada Without Recognition – e nas dos Essence, que actuaram depois de Crushing Sun.

Demonstrando algum sentido de humor, dando nomes de donas de casa desesperadas a algumas das suas músicas (Eva Longoria, Teri Hatcher, a título de exemplo), os portugueses Crushing Sun vieram representar o Death Metal no primeiro dia do festival, atribuindo-lhe uma sonoridade própria, com um toque de Doom em dados momentos. Foi na Love que esta especificidade da banda mais se notou, e foi também aqui que eles mais brilharam. Esta actuação ficou, ainda, marcada pela boa disposição dos vários membros da banda, em especial, do vocalista Bruno Silva, que não olhou de lado as oportunidades para distribuir cigarros e água a quem pediu. Acima de tudo, uma boa prestação.

Foi durante a sessão de autógrafos dos Tiamat que os Essence deram início à sua actuação. Eles e os Revolution Within estiveram no primeiro dia deste festival a representar o Thrash sem merdas. Não tendo podido dar a devida atenção à actuação dos que abriram o espectáculo, resta-me apenas dizer que este concerto se revelou bastante enfadonho, com tempero em demasia, bem à moda do clichê do Thrash, que ora soa a Metallica ora a Slayer. Por falar neles, o ponto alto do concerto foi um cover da Raining Blood. Contudo, e devido ao espírito festivaleiro, o público que se manteve na frente do palco pareceu aderir à prestação destes Dinamarqueses que estiveram a apresentar o seu primeiro álbum, Lost in Violence,  lançado este ano.

Desde que as portas abriram, por volta das 15:00 horas, já os vários membros dos Anathema podiam ser avistados a vaguear pelo recinto, com suficiente boa disposição, a julgar pelo facto de não se terem importado de conversar com alguns dos presentes. Em relação à sua actuação, é essencial ter bem presente a experiência destes senhores e a especial simpatia do guitarrista, Daniel Cavanagh, que não tardou em puxar pelo público em todas as ocasiões em que a electricidade decidiu fazer uma pausa, compensando as reacções compreensivelmente chateadas do vocalista e irmão, Vincent. Este problema persistiu durante todo o tempo em que os Anathema estiveram em palco. Transpondo com bastante perícia este enorme obstáculo, o grupo dos três irmãos de Liverpool (resta mencionar Jamie, no baixo) trouxe consigo uma melodia repleta de sentimento – algo depressiva, por vezes – que nos impingiu sentimentos fortes, apelando ao lado mais negro da nossa existência. Deu-se aqui não só um concerto, mas também uma experiência, ao nível da qual só os Opeth conseguiram estar.

Devido aos problemas eléctricos, os Tiamat só conseguiram começar após 35 minutos de atraso. Um pouco antes desta hora, estavam os Anathema na tenda dedicada às sessões de autógrafos. Os suecos trouxeram consigo uma bagagem criada ao longo de 23 anos de estrada, relembrando momentos musicais de ao longo de toda a sua carreira. A nós, cá de Portugal, soaram-nos em igual medida a Type O Negative e Moonspell, em momentos diferentes do concerto. Este metal melódico e gótico de vozes graves e roucas, ficou contraposto ao visual meio hipster (por causa do chapéu) e de maquilhagem à Boy George, versão homem, do vocalista Johan Edlund. Eles seguiram, também, os passos dos Anathema ao dedicarem uma música aos amigosOpeth – estes últimos que permaneceram na nossa cabeça, por irem actuar a seguir; algo a que os Tiamat não se conseguiram sobrepor em pleno, embora se tenham mantido fiéis à sua própria música e agradado tanto aos fãs mais fiéis como aos curiosos no meio do público.

Eis que chega o momento da noite – os Opeth entram, finalmente, em palco, após uma sucessão de problemas e respectivos atrasos, anteriormente mencionados, que não contribuíram senão para aumentar ainda mais a expectativa para aquele que viria a ser o ponto alto do festival. A julgar pela setlist – que abriu com The Grand Conjuration, do seu álbum de 2005, Ghost Reveries, uma óptima escolha para dar início a este concerto; e, tendo sido com In My Time of Need do álbum Damnation que os Opethrepresentaram a sua faceta menos agressiva, mas nunca menos grandiosa – e, também, pelo facto de Mikael Åkerfeldt não ter deitado mãos a uma guitarra acústica durante esta actuação, talvez seja possível afirmar que esta formação sueca já tenha deixado para trás a sua fase mais ‘abraçável’ (ficamos à espera do novo álbum e posteriores concertos para confirmação). A segunda música tocada, Face of Melinda, foi a que nos levou o mais atrás na carreira dos Opeth, durante este concerto, representando o seu quarto álbum, Still Life (1999).

Fica aqui um pouco de desilusão pessoal por não nos terem levado a um momento ainda mais anterior, a álbuns como Morningrise eMy Arms, Your Hearse. Tratou-se, acima de tudo, de um concerto fenomenal, em que os Opeth não deixaram a menor das dúvidas em relação à sua colocação como cabeças-de-cartaz no primeiro dia deste festival. Entre momentos mais agressivos e outros mais fofinhos, sempre com uma sonoridade poderosa e negra, de uma individualidade inegável, o grupo de Mikael Åkerfeldt, de seu espantoso bom humor, presenteou-nos com muito daquilo que só eles sabem fazer e deixaram-nos apenas a desejar que o encore se tivesse prolongado para além de Deliverance. Por terem, ainda, dedicado uma música aos Morbid Angel, seus amigos de longa data, ficou a necessidade mínima de estes últimos lhes corresponderem com uma prestação que chegasse só a metade das proezas realizadas nesta noite pelos Opeth.