Foi sob um intenso calor e muitas nuvens de pó que decorreu o Vagos Open Air 2010, que se arrisca já a tornar-se um festival de culto para os fãs de sonoridades mais extremas. Foram alguns os milhares que acorreram à Lagoa do Calvão para assistir a um evento bastante ecléctico, tanto no que toca aos géneros representados, como no que à representação de bandas nacionais e internacionais diz respeito. Neste particular, eram estas últimas que elevavam a fasquia de expectativa, tal como sucedeu na edição anterior, com nomes como Amon AmarthKatatoniaCynicThe Gathering ou Dark Tranquility.

Por entre muita cerveja e num cenário bucólico, os concertos iniciavam às 17h, hora proibitiva dadas as temperaturas que se faziam sentir, mas que ainda assim não afastou os que não queriam perder um só riff. E sempre eram 6 bandas em cada dia, logo, previa-se um desafio à resistência do headbanging…

Coube aos algarvios Prayers of Sanity o início das hostilidades, trazendo consigo o recente Religion Blindness, num thrash a apelar às raízes do género, obtendo uma óptima resposta do ainda pouco público que se aventurava debaixo da inclemência do sol. De seguida, os Miss Lava apresentaram a sua proposta hard rock mesclada com um groove mais stoner. Embora o ritmo, contido mas sem perder dinâmica, seja bem representativo da sonoridade a que Miss Lava apela, talvez se impusesse uma vocalização não tão linear, onde pudemos encontrar ecos da influência de John Garcia. A rever, portanto.

Seguiu-se aquele que foi provavelmente o momento mais festivo do Vagos Open Air: as actuações dos portugueses Gwydion e dos finlandeses Ensiferum. E falamos em aqui em festividade pois ambos os concertos resultaram em autênticas celebrações vikings, arrastando o público num sucessivo circle pit. Com um elemento mais pesado na sua sonoridade, os Ensiferum acabaram por arrancar a primeira grande ovação do dia.

Alguns anos passaram desde que bandas como AnathemaKatatonia ou Paradise Losttrouxeram matizes característicos do death à estética sonora doom, sob a chancela da editora Peaceville. De todas essas bandas, talvez os My Dying Bride continuem a ser os mais fiéis à fórmula original, embora também eles não tenham sido avessos a algum experimentalismo, como se reflecte no álbum 34.788%… Complete, até depurarem a toada mais gótica da sua sonoridade.

Mas história à parte, os My Dying Bride confirmaram ser um caso sério de popularidade no underground português, tendo sido uma das actuações mais aclamadas. Mesmo para quem tivesse algum cepticismo relativamente ao sucesso da cadência da banda e à voz arrastada e pungente de Aaron Stainthorpe num contexto ao vivo, ficou claro que os My Dying Bride são capazes de transpôr o funéreo dos seus trabalhos de estúdio para o palco de forma convincente, sem perder o seu traço vincadamente intimista e melancólico. E claro está, clássicos como The Cry of Mankind e She is the Dark levaram ao rubro os seguidores da banda.

A última banda do dia, Meshuggah, é, definitivamente, um caso à parte no espectro do metal, e era também uma das estreias mais aguardadas em palcos nacionais. Provenientes de Umeå (cidade que viu nascer também os Cult of Luna), a swedish metal machine constituía uma lacuna importante por terras lusas, e a banda tratou de não defraudar quem tanto esperou por eles. Aliás, como reconheceu o vocalista Jens Kidman, o que se passa com este mundo para eles ainda não terem vindo cá…

Servindo-se de um detalhe do tema Lethargica como uma espécie de introdução ominosa, os Meshuggah descarregaram de pronto Rational Gaze e Bleed, esta última já um tema charneira da carreira dos suecos, tal a complexidade e intensidade da sua estrutura.

Com uma actuação mais baseada nos álbuns ObZen e Nothing, os Meshuggah apresentaram-se de forma compacta, fazendo jus ao só aparentemente contraditório “monólito progressivo” da sua sonoridade: temas complexos, estruturados de forma “insana”, mas que obedecem a uma lógica interna e coerente, um verdadeiro “caos organizado” só ao alcance de músicos com a proficiência técnica que há anos é reconhecida a estes senhores. E claro, os riffs “tamanho-Adamastor” peculiares da sonoridade Meshuggah, pontuados pelos solos jazzísticos de Fredrik Thordendal acabaram com qualquer reminiscência de cansaço ou de algum frio nocturno que já se sentia no recinto, impulsionando o público freneticamente.

Como encore, Future Breed Machineaquela música de Meshuggah, deliciando quem há muito esperava por uma visita destas. E que visita.