Se o primeiro dia foi marcado pela deriva ao que é habitual ao festival, o segundo foi dia-modelo para qualquer festival de doom que se preze. Às vezes até em demasia porque a padronização foi demasiada antes dos reis de Birmingham enterrarem Alvalade.

My Master The Sun @ Under The Doom Festival

My Master The Sun @ Under The Doom Festival

My Master The Sun @ Under The Doom Festival

My Master The Sun

Os portugueses My Master The Sun abriram um dia que seria mais longo mas longe da enchente do dia anterior. Os lisboetas situam-se algures entre o stoner e o doom, mas o que desperta imediatamente a atenção é o idioma escolhido e a inevitável associação que qualquer banda com vocais entre o declamado e o rasgado a cantar em português acaba por sofrer: Mão Morta. Ainda assim, é de salutar a abordagem decadentista e desmarcadamente urbana, afinal é melhor fazer lembrar a melhor banda nacional do que a milésima banda de quarta divisão do stoner boa onda que invadiu os palcos nos últimos tempos. Bela forma de começar o segundo dia.

Shattered Hope @ Under The Doom Festival

Shattered Hope @ Under The Doom Festival

Shattered Hope @ Under The Doom Festival

Shattered Hope @ Under The Doom Festival

Shattered Hope @ Under The Doom Festival

Shattered Hope

Há depois a necessidade de deixar a cronologia um pouco para trás e agregar Shattered Hope e Mourning Dawn. Não que estilisticamente estejam especialmente ligados: se os gregos se deslocam a custo pelos caminhos do funeral doom, os franceses aceleram (pouco) com atmosferas que remetem claramente para o black metal mais depressivo. No entanto, têm o mesmo problema: uma tremenda falta de qualquer coisa que os distinga das muitas bandas que alinham nos seus respectivos campos. Ainda mais porque nenhum dos concertos foi especialmente inspirado. No caso dos franceses a responsabilidade será maior porque apesar de Funeralium não ser um portanto de inovação é uma banda que se porta especialmente bem a vivo. Acabaram por ser duas actuações cumpridoras mas facilmente esquecidas no meio do que de bom houve no segundo dia do UtD.

Mourning Dawn @ Under The Doom Festival

Mourning Dawn @ Under The Doom Festival

Mourning Dawn @ Under The Doom Festival

Mourning Dawn @ Under The Doom Festival

Mourning Dawn

Entre uma coisa e outra: Carma. Os coimbrenses são donos de um dos registos portugueses mais interessantes do ano passado, precisamente o homónimo lançamento de estreia o que gerava natural curiosidade para a transposição ao vivo, nomeadamente devido ao intimismo do registo em estúdio. Acaba por ser um resultado híbrido: os excelentes riffs estão todos lá, os lamentos gritados também. mas houve uma boa parte do intimismo que se perdeu na experiência em concerto. Seria redutor apontar como razão única as condicionantes normais de qualquer apresentação ao vivo, porque os temas simplesmente não tiveram a mesma intensidade e sobretudo identidade. “Lamento” acaba por ser a excepção: é, em qualquer circunstância, um enorme tema.

Carma @ Under The Doom Festival

Carma @ Under The Doom Festival

Carma @ Under The Doom Festival

Carma

A única carta (meio) fora do baralho do segundo dia foram os sevilhanos Orthodox. O duo não é tão (ou nada) dado à destruição emotiva mas antes ao aniquilamento de cérebros com riffs desconcertantes de um baixo em permanente desconstrução qual invasão free ao mundo do Doom. O som esteve particularmente adequado e deu para perceber ainda melhor que Axis será porventura o momento mais inspirado dos espanhóis. Uma actuação que só pecou por ligeiramente curta neste regresso a Portugal.

Orthodox @ Under The Doom Festival

Orthodox @ Under The Doom Festival

Orthodox @ Under The Doom Festival

Orthodox

Para o fim, Esoteric. “Para o fim” tem aqui um significado muito mais abrangente que simplesmente sinalizar que os ingleses foram os últimos a subir ao palco e a encerrar a edição de 2016 do Under The Doom. “Para o fim” é a direcção apontada inúmeras vezes tamanho é o desconforto pelos espaços mentais que emanam dos verdadeiros reis do funeral doom a nível mundial. Há muitas bandas a debitar riffs de qualidade mas quantas o fazem com três guitarras em simultâneo e onde a dificuldade é perceber qual deles o mais sublime? Há muitas bandas com bateristas competentes num género que não prima pelo virtuosismo mas quantas têm um tresloucado que no meio do muito espaço que fica por preencher decide que ali o melhor é mesmo “sincopar”? E fazer tudo ao mesmo tempo?

Esoteric @ Under The Doom Festival

Esoteric @ Under The Doom Festival

Esoteric @ Under The Doom Festival

Esoteric @ Under The Doom Festival

Talvez o mundo não resistisse a muitas com esta capacidade, mas a verdade é que, no meio da maior lição de funeral doom que é possível ter, há influências que se repercutem na música dos britânicos de forma incrível e que contribuem de forma decisiva para se perceber que esta é a melhor banda do género. O sublime “Paragon Of Dissonance” foi o ponto central do concerto mas “The Circle” do já longínquo “The Maniacal Vale” foi porventura o momento alto da noite. Que o regresso seja para breve e de preferência com material novo: é que o coração pode não aguentar muito bem, mas a cabeça precisa desesperadamente de uma dose de Esoteric por dia.

Esoteric @ Under The Doom Festival

Esoteric @ Under The Doom Festival

Esoteric @ Under The Doom Festival

Esoteric