Ao segundo disco trataram de mostrar o quanto ácidos poderiam ser. Na terceira tentativa comprovaram que não podiam ser apenas fruto da atracção pelo enigmático. “Mind Control”, o mais recente registo, marcou definitivamente pela positiva o ano musical. Ainda com os riffs embrenhados no subconsciente, procurámos perceber a actualidade dos Uncle Acid & The Deadbeats e como percepcionam tudo o que rodeou a composição do álbum. Contudo, Uncle Acid, tratou de nos esclarecer sobre muito mais.

Apesar de se poder apontar algumas influências no vosso som, a primeira vez que ouvi “Blood Lust” foi como se um mundo novo se abrisse. A avaliar pelas reacções de tanta gente, temo não ser o único. Como se sentem perante a importância que assumiram para algumas pessoas?

É óptimo que as pessoas apreciem muito a nossa música, mas tento sempre não pensar muito nas opiniões dos outros. As pessoas gostarem, ou detestarem, não tem grande efeito no que escrevo, o que penso ser algo positivo. A maioria das pessoas acredita e valoriza aquilo que bem entende.

Houve um momento em que existia algum mistério em vosso redor. Entretanto, com as actuações ao vivo e também alguma maior exposição, o mistério foi dispersando. Esta ideia foi pensada e vista como um objectivo? Ainda sentem que o mistério deve ser algo presente no vosso mundo musical?

Penso ainda existir uma certa aura de mistério em torno do que fazemos. A razão principal que contribui para isso resume-se ao facto de eu não gostar de ser fotografado e querer um pouco de anonimato. Não me interessa ter a atenção e ser elogiado pelos outros. Não é essa a razão pela qual crio a minha música. As pessoas não sabem quase nada acerca de cada um de nós, seja isso relativo quer ao nosso presente, quer ao nosso passado. E, pessoalmente, isso agrada-me.

As reacções aos vossos discos têm sido em crescendo. Quando compuseram Vol.1 alguma vez pensaram naquilo que se iam tornar? Como foi editar Vol.1 com meios próprios? Nessa altura tiveram noção de algum impacto ou sentiram que foi algo apenas marginal?

Era impensável imaginar que chegaríamos a este ponto. Componho música apenas para mim, por isso não deixa de ser surpreendente que outros também gostem. Sempre me satisfizeram as músicas que escrevo, mas nunca pensei que pudessem ter este tipo de reacção e chegar tão longe. Por ter este tipo de sensação, é que decidimos fazer uma prensagem tão limitada nessa altura.

Acreditam que a vossa música vale por ela própria e, como tal, se dispensam as vossas fotos e afins? Como reagem quando actualmente a imagem parece ser tão ou mais importante que a música?

Apenas queria que a banda chegasse ao patamar que merecesse, unicamente com base na música por si própria. As fotos das bandas são insignificantes, não têm relação com o conceito subjacente aos álbuns, nem com aquilo que eles representam. Quando vamos ver um filme, não aparece uma fotografia gigante do director no fim da reprodução. O aspecto dele não interessa a ninguém, nem dá nenhuma orientação à qualidade da película. O mesmo deveria acontecer com a música.

A vossa cidade natal, Cambridge, não é propriamente uma cidade à qual seja atribuída um grande movimento musical. Como foi criar uma banda numa cidade assim?

Criar uma banda em Cambridge, com elementos da própria cidade, foi impossível. Como tal, tive que encontrar os outros membros em Londres.

Existiu alguma alteração na forma de compor de “Blood Lust” para “Mind Control”? Foi difícil agregar novamente inspiração depois de um disco tão fascinante como “Blood Lust”?

Não, não houve nenhuma alteração na estruturação de um disco para outro. Foi exactamente o mesmo processo: pensas numa história e depois, simplesmente, esperas que chegue a inspiração para criar os temas.

Existe algum tipo de influência extra-musical ao nível literário ou cinematográfico que sejam explorados pelos Uncle Acid & The Deadbeats e que constituam uma fonte de inspiração para a composição?

Costumo assistir a muitos filmes de todos os tipos, o que me traz muita inspiração. Durante a concepção de “Blood Lust” li bastante material de Matthew Hopkins e visualizei filmes britânicos de terror. Posteriormente, com “Mind Control”, a literatura focou-se em Charles Manson e Jim Jones, e, cinematograficamente, interessei-me em filmes de motoqueiros e outros série B americanos. Cada um dos álbuns é diferente e inspira-se em novos conceitos.

Para uma banda que tão pouco tocava ao vivo, no espaço de um curto período de tempo, pisar o palco principal do Roadburn e estar prestes a partilhar o palco com os Black Sabbath deve ser algo indescritível. Como te sentes em relação a esta nova realidade?

É uma sensação fantástica. No início não tocávamos muito porque, na verdade, eramos bastante maus, por isso decidimos parar de tocar ao vivo até termos uma banda que conseguisse tocar à séria. Mês após mês, enquanto os nossos amigos se ocupavam com as actualizações do seu Facebook, nós fartávamo-nos de trabalhar e ensaiar no estúdio, aperfeiçoando os nossos temas e os arranjos, ao mesmo tempo que reforçávamos os nossos laços, e, por conseguinte, a banda.

A sensação de que representam o melhor das décadas de 60 e 70 é inerente ao vosso som. Contudo, sente-se um toque muito próprio, um timbre vocal e riffs únicos. Sentiram que tinham a oportunidade para criar algo a tocar no passado mas com o vosso cunho pessoal?

O que escrevo acaba por ser uma mistura de todas as influências que recolho daquilo que oiço. Alguns poderão dizer que o que nós fazemos não tem qualquer originalidade. Apesar disso não conheço nenhuma outra banda que tenha as mesmas bases e o mesmo tipo de abordagem.

Conseguem posicionar no tempo o momento em que passaram de desconhecidos com edições restritas, para aquilo que representam agora? Consideram que o ingresso na Rise Above Records foi essencial para esta mudança? Como encaram esta mudança de interesse em vós?

Suponho que tenha sido no momento em que as duas edições em vinyl de “Blood Lust” esgotaram. Foi certamente nessa altura. A Rise Above teve um papel fundamental em nos colocar num patamar que até então não tínhamos alcançado. De momento, tudo está bem encaminhado, nem temos nada com que nos queixar. Por isso, só posso concluir que esta transição está a ser natural.

Depois de “Mind Control” e dos concertos com os Black Sabbath, o que podemos esperar dos Uncle Acid and the Deadbeats? Já conseguem pensar em novas criações sonoras para o futuro?

No próximo ano vamos tocar ainda mais ao vivo, e, a partir daí, vamo-nos concentrar no álbum seguinte.