Normalmente quem dá as prendas não são os aniversariantes, são os convidados para a cerimónia. Neste caso foi ao contrário. Comemorando os seus tenros e belos 16 anos de existência, a ZDB deu aos presentes, e em simbólica dose tripla: U.S. GirlsSun Araw e Scout Niblett (foto). Chamaram-lhe Sweet lil´16, e ainda deram a oportunidade de em conjunto serem os frequentadores da ZDB a apagar as velas de um bolo que seria o compacto de toda a noite.

Primeira vela: U. S. Girls

A aparição de Meghan Remy na noite de 5 de Novembro não era uma novidade para a ZDB, sendo assim uma reaparição. Sem tons virginais, nem mantos brancos, aureolas celestiais, e meninos de coro a adorar, esta reaparição de U. S. Girls trazia consigo um único adorno na sua vela pronta a derreter em lume muito lo-fi. O dito cujo, é o mais recente disco Go Grey, lançado em Fevereiro de 2010. E foi por ai que a performance percorreu esmagadoramente, perante uma audiência ainda um pouco desalinhada e a compor-se aos poucos.

Lançada na sua missão de proto-tapejockey, esganiçou ecos multi-rock/pop por entre as sombras melodiosas da sua voz de formato light. Ah, e claro, reverb, muito reverb, que abraça de uma ponta a outra, e lhes dá o nó por entre os pedaços esquartejados, a canções em tons a roçar o lo-fi e a fazer lembrar por vezes nacos de Raincoats, Beat Happening ou Young Marble Giants. Momentos fortes, destaques para: I Don’t Have a Mind of My OwnDown on Jackson e Red Ford Radio – o fumo mais espesso da vela que durou cerca de 40 minutos.

Segunda vela: Sun Araw

Com a novidade On Patrol, o álbum lançado em Abril do ano corrente, Cameron Stallones continua o seu romance grotesco com uma espécie de psicadélico retro, mas que ao mesmo tempo está ensopado em líquido flamejante drone. Foi com esta disposição, vá, faltavam os óculos e o chapéu do seu habitual look afreakalhado, que Sun Araw se posicionou no palco da ZDB, e já perante um espaço completamente povoado.

Entre as reacções mais frias, mas não descomprometidas, entre os que iam balançando a cabeça e os ombros, ou os que ziguezagueavam o corpo todo, o cheiro da vela obrigava a respirar um ácido de psicadelismo alimentado a carvão da época da revolução industrial, sem deixar, como já dito, de estar possesso pelos ritmos alucinados e abrasivos do drone. Não tão óbvio como previsivelmente poderia ser, lá estavam a espaços muitas das influências asiáticas, mais japonesas, do que coreanas, vietnamitas ou chinesas, que salgam canções esticadas até ao limite como Ma Holo eHolodeck Blues.

Ao calor já próprio da ZDB, o calor de Sun Araw (desta vez acompanhado por um parceiro de jogatana) adicionou mais necessidade de ventilação…Intoxicou e inebriou!!! Morte à pop do verso-refrão-verso, viva o cut-up loop…

Terceira vela: Scout Niblett

Pode-se dizer com quase certeza absoluta, que Scout Niblett foi a única a arrastar consigo os fãs mais empenhados e dedicados, alguns, hipoteticamente, desde 2005 quando Emma Louise Niblett lançou Kidnapped by Neptune, o qual terá sido o responsável por catapultar a menina songwriter para uma audiência mais vasta e rica. O facto de já ter passado por Portugal várias vezes, pela ZDB em 2009, outra já este ano pelo Festival Curvo em Aveiro, ajuda a manter uma ligação próxima, o que motiva mais a uma relação de cumplicidade.

De colete reflector, como quem segue para uma peregrinação através de estradas soturnas e deslampejadas, de sapatilhas enfiadas como quem fosse correr uma maratona, e de dedos adornados pelos seus imensos anéis de pedras coloridas, sempre acompanhada pela sua Fender Mustang – assim se apresentava Scout Niblett, desta vez acompanhada na bateria por Daniel Wilson.

Sempre sorridente, e simultaneamente na sua incontornável timidez, e já que The Calcination of Scout Niblett é o mais recente conjunto de canções, nada melhor começar com uma das músicas, Bargin. Adivinhava-se o comportamento musical minimalista, tricotado pelos acordes simples, os quais deambulam sempre em variação de brisa suave e vento ruidoso – é a marca de Scout Niblett, a que se lhe junta aquela voz distinta, por vezes a fazer lembrar o legado mais irado do grunge, mas com as suas mágoas próprias.

The Calcination of Scout Niblett havia de voltar uma e outra vez com Kings, The Calcination of Scout Niblett ou Cherry Cheek Bomb, mas o momento de mais agitação guardava-se para Hot To Death, emblemática faixa de Kidnapped by Neptune, régua e esquadro perfeitos para dar a conhecer um estilo único vincado entre feminilidades de Cat PowerPJ Harvey ou Kim Deal e ambientes saudosos do blues mais carregado.

Apesar da presença de um baterista, o elástico e violentamente certeiro, em estilo Black Sabbath, Daniel Wilson, houve tempo ainda para Scout Niblett pegar nas baquetas e lembrar que We Are All Going To Die. E poderíamos morrer mesmo todos, no que poderia ser um aniversário bem satânico, mas só mesmo para renascer de novo e estar a tempo de um encore que faltou em 2009.

A vela maior apagava-se com toda a cera entranhada nas matérias da ZDB, ah…e parabéns pelos 16 anos!!! Que continuem até ao fim do universo…