É verdade que U.S.Girls e Slim Twig estiveram na ZDB para apresentar os seus promissores novos trabalhos, mas, se tivesse que ser escolhido um vencedor para a noite, esse seria o órgão. De facto, se bem tocado é incrível como as teclas deste instrumento conseguem captar e dar uma vida completamente diferente a todos os temas e, sem qualquer tipo de hesitação, se não estivesse presente em ambas as actuações, teria soado bem menos interessante.

Meghan Remy trouxe a Lisboa o seu projecto, desta feita acompanhada pela banda, e não há que esconder, suou muito melhor desta forma do que se fosse transposta para uma experiência mais minimal e solitária. Alias, ouvir por exemplo Go Grey e, posteriormente Gem, é como acompanhar em directo a evolução de U.S. Girls. Assim, esse mesmo evoluir esteve bem patente, com uma performance muito mais instrumental, progressiva e compacta, longe do extenso minimalismo que caracterizou o seu passado. Apesar de tudo, conseguiu manter, tal como em Gem, os factores ambientais que caracterizam as suas influências do noise. Contudo, mesmo estas componentes estiveram muito mais curtas e suaves, mas de qualquer maneira, incisivas.

Durante cerca de 30 minutos, U.S. Girls pareceu não pertencer a este tempo, notou-se algo de um passado mais distante, em que as influências glam e blues eram evidentes. Ao dinamismo da banda não foi indissociável a voz extremamente aguda de Meghan, tornando-se curioso o facto de, apesar de instrumentalmente mais cheio, continuar a ser a mesma a dar corpo e rumo aos temas. Não se pode dizer que disponha de uma voz ultra versátil, não deixando por isso de ser realçável, que em nenhuma circunstância, tivesse feito sentido outro tipo de vocalizações. Meg sabe do que dispõe e conseguiu tirar proveito disso em variados pormenores, seja quando quase gritou emRosemary, seja quando surge vocalmente mais ‘saltitante’ em Work from Home, seja quando é suavizada em Another Colour, ou mesmo quando não parece desta década em Jack.

Mesmo que os seus olhos por vezes parecessem um pouco perdidos e quase assustados, toda a dicotomia de vozes agudas que utilizou, deu mais brilho e naturalidade a algo que não pareceu muito esforçado. Isso não só é saudável, como é de saudar.

Na primeira parte, Slim Twig – que posteriormente iria acompanhar a sua esposa em U.S.Girls-, apresentou uma actuação tão interessante e intensa como a seguinte. Situados entre uma mistura envolvente de Doors com Crystal Antlers, foi o órgão que sobressaiu, num estilo que ficou caracterizado pela forma como Ray Manzarek compunha para a banda integrante deJim Morrison. Apesar de as recordações dos Doors conseguirem sobressair até ao ouvido mais distraído, o registo de Slim Twigteve igualmente aquilo que se poderia intitular de som com ‘pinta’.

Assim, surgiram menos caóticos, mais melódicos e harmoniosos que uns Crystal Antlers, a que muito se deveu a voz de Max Turnbull que, tal como Meghan Remy, traduziu algo pouco contemporâneo, recuperando componentes menos actuais.

A avaliar pelo pouco público presente, será uma das actuações que muitos se arrependerão de não terem estado presentes? É provável que sim, quando ambos os projectos se tornarem grandes.