Mike Huckabee, só para ti: não sou homofóbico, nem racista. Também ouçoTorche!, e já te imagino nas primárias de 2012 com uma camisola deles, a fazer campanha por uma América melhor, livre de desemprego, com crescimento económico e com álbuns de doom e stoner à fartazana nas prateleiras de uma qualquer Walmart. E também EPs, os parentes pobres tantas vezes descriminados na árvore genealógica de uma qualquer discografia.

E é de um EP que trata este artigo. Não sei se, depois das palavras de Huckabee, não estarei aqui a falar de um hipotético conquistador da Billboard 200 e de uma banda candidata a tocar no Madison Square Garden para pais e filhos. Seja como for, excluamos essa hipótese e tratemos este EP como ele merece ser tratado.Meanderthal (2008) lançou Torche às feras. Os leões (ou ficaria melhor “os alligators”?) devoraram o segundo álbum da discografia do trio de Miami. E nem a carcaça do mesmo foi deixada ao relento. Vieram as hienas e levaram os pedaços restantes. E, como é de conhecimento geral, não se deve deixar feras famintas, principalmente depois de um bom petisco. O reflexo de Pavlov agudiza-se e elas necessitam que se lhes atire algo, nem que seja apenas para dar exercício às mandíbulas. Os Torche não se fizeram rogados. E, dois anos depois, decidem escrever oito músicas, uma delas já conhecida desde 2009 (U.F.O.) , e lançam-nas em Songs for Singles, o terceiro EP da banda, depois de In Return (2007) e Healer / Across the Shields (2009). Meanderthal foi um álbum, poder-se-á dizê-lo, pioneiro. Sentiu-se, ao ouvir esse disco, uma espécie de calafrio saboroso por se estar ante uma obra capaz de unir aquele feeling cru e sujo de uns Nation of Ulysses, com bocados de Dinosaur Jr., fragmentos de Baroness e um toque mais radio-friendly, até, em simultâneo. Meanderthal saltou à vista, marcou o seu espaço e criou um estilo próprio dentro da onda sludge.

Songs for Singles poderia ser somente um complemento a Meanderthal; tal como acontece com aqueles videojogos em que, meses depois, são lançados packs de expansão. Mas não. Este EP, colocado à venda há dois meses, tem uma direcção um pouco diferente. Para já, há a destacar o tempo do registo: vinte minutos. E assume, logo de início, uma postura punkish, regular e unidimensional. Riffs lamaçentos de sorriso posto e velocidade de quem gosta do prego a fundo: habitat onde os Torche parecem sentir-se à vontade, sem se preocupar demasiado com estruturas complexas, como acontece nos full lenght. Esta postura mantém-se durante as seis primeiras faixas, onde se destaca Arrowhead, pelo seu feeling post-hardcore à Helmet.

As duas faixas finais, Face the Wall Out Again, mostram o “spacial side of the moon” dos Torche. O ritmo diminui consideravelmente e a banda assume um papel mais atmosférico, num approach ao sludge mais tradicional, sem cair, nunca, naquele sludge paradigmático, enraizado pelos grupos que todos conhecem. Face the Wall faz lembrar, por vezes, Amnesian de Meanderthal e Out Again é uma espécie de punk em slow motion, por muito paradoxal que isto possa soar. Com um riff espapaçado, repetido até à exaustão, Out Again preenche os seis minutos finais deSongs for Singles de forma eficaz, fazendo do pleonasmo estrutural o trunfo da manga do encerramento deste EP, que funciona como aquele tradicional pires onde vêm as manteiguinhas e os patés, prontos a serem engolidos antes do prato principal.

E o que será o próximo prato? Um novo álbum? Ou os dois concertos, em Lisboa e Porto, já hoje e amanhã? Fica também a minha pergunta: dá para pedir ambos?