Não será por acaso que o primeiro dia do ano de calor veio com os Torche. Dúvidas? Se elas existissem bastaria olhar para ocalçonete verdinho vibrante do baterista, como se preparasse para uma partida de vólei na praia. Vólei ou kickboxing, pois assim que se iniciou o concerto o seu pé bruto estoirou o pedal da bateria e cortou a “Piraña” a meio. Por meros minutos houve a sensação de estarmos nos Estados Unidos e presenciarmos uma sessão destand-up comedy quando Steve Brooks, de forma irónica e divertida, propõe um solo para distrair a malta.

A partir daí foi a quebra de gelo que, tanto a banda como nós, precisávamos para começarmos uma relação de rendição. Mas osTorche são falsos meigos. Riffs impregnados de hostilidade, que libertam o calor opressivo de Miami, tórrido e abafado. No meio deles, os de “Restarter” são os mais bárbaros; “Believe It” é a princesa bastarda que por detrás dum belo disfarce, de vestidos de seda e tule, e sapatos desconfortáveis escondidos pelas suas saias, carrega uma violência amarga. E as passagens por “Harmonicraft”, que não chegaram a trazer a Portugal quando editado em 2012, com a sua capa de carneiros do olimpo a vomitar arco-íris e a fazer bolas de pastilha elástica, foram dos episódios mais animalescos do concerto.

De tanta libertação, exaustos saem do palco e voltam vitoriosos para encerrar com “Charge Of The Brown Recluse”, num retorno ao que eram os Torche de há dez anos.

Os Redemptus foram o inverno. Sob um pano de fundo gelado, com projecções de um bosque misterioso e sombrio, entre candeeiros e mosquitos embriagados pela lâmpada, que nos leva para os antigos quartos de tortura e experiências realizadas na medicina de outrora. O novo projecto do antigo vocalista de EAKleva-o agora ao baixo também, para um post-metal celebrado em “We All Die The Same”, mais compenetrado e reflexivo do que a efusividade que se deu a seguir.