Os Torche são um caso singular. Enquanto 99% daqueles que se movimentam pelos terrenos enlameados do sludge preferem uma intratável abordagem, seja na escola pútrida (e “a galope”) de New Orleans, seja na variante regada a Jack Daniels da Georgia, o agora quarteto de Miami é tão easy-going que até faz impressão.

É quase indiscutível que o primeiro álbum, o homónimo, é o mais pesado. Aqueles riffs graves e grudantes não mais se repetiram em constância no doravante percurso dos Torche, com Meanderthal a reprogramar em definitivo a banda com outros horizontes. Metaforicamente, estes tipos fazem recordar o aperfeiçoamento da tecnologia: à medida que os anos vão avançando, o peso vai diminuindo. Harmonicraft transluz liberdade e descomprometimento, sem soar a algo azeiteiro e forçado.

Talvez porque os Torche nunca ressoaram a mais uma reciclagem dos primeiros anos de vida de High On Fire. Com essa distância, conseguiram definir o seu próprio habitat natural, onde já ninguém estranha a existência de um disco como este – ao contrário do que acontece com os Baroness, que veem muita gente a franzir o sobrolho quando escutam Yellow & Green. Em Harmonicraft, encontramos uma coerente extensão daquilo a que alguns chamam de “stoner pop”, por demais evidente em Meanderthal e no EP Songs for Singles.

Uma extensão que denuncia um aperfeiçoamento dessa arte de misturar dois conceitos tão distintos. O ritmo elegido pelos Torchecontinua a remeter-nos para o universo do pop punk, enquanto os riffs melódicos e fuzzy oferecem um contexto de fundo que tem tanto de southern, quanto de dreamy. Steve Brooks, como é habitual, não berra: a sua voz ecoa harmoniosamente por entre as sacarinas guitarras, fazendo da maioria das malhas deHarmonicraft uma audição acessível e bem-humorada.

Para o fim, todavia, está reservada uma nuance. As derradeiras três faixas (uma delas instrumental) retiram claramente o pé de acelerador e nelas encontramos uma ode que vai desde o doom (há riffs capaz de recordar Bongripper em Looking On, malha final) a um instrumental psicadélico, passando pelo shoegaze. O triunfo, lá está, é que até neste fecho os Torche soam como banda-sonora para um final de tarde em South Beach.