Podemos compreender que o eterno perfeccionismo de Hecker é equilibrado por uma necessidade compulsiva de completar os seus trabalhos, ou não seria capaz de lançar anualmente material novo. Algumas das faixas deste “Virgins” encontravam-se em fase embrionária ainda antes do lançamento de “Ravedeath, 1972” em 2011, mas só agora fez sentido compilá-las num álbum de longa duração. De facto, “Virgins” apresenta uma nova sonoridade, com faixas mais curtas e mais camadas melódicas do que estáticas, escapando do drone e aproximando-se do minimalismo clássico.

As experiências ocorrem ao longo do álbum, com rápidas variações de volume, modificações na velocidade de reprodução de alguns sons, tornando-os mais agudos ou mais graves, ou alterações a sons que aparentam ser analógicos – em instrumentos de sopro em “Incense at Abu Ghraib”, e em algumas notas do piano que tem o seu momento de destaque em “Black Refraction”, uma das mais belas e serenas faixas das 12 que compõem este registo. Por contraste, destaca-se “Amps, Drugs, Harmonium” pelo mérito em ser simultaneamente tensa e relaxante, algo que se repete com a pulsação impiedosa do início de “Stab Variation”.

A marca mais distinta deste “Virgins”, no entanto, será o trabalho heterofónico que nos coloca duas melodias diferentes, embora interligadas, em lados opostos da imagem sonora. É o que acontece ao longo de “Virginal”, composição dividida em duas partes que surgem em momentos diferentes do álbum, jogando assim em mais um plano com a dualidade presente e criando simultaneamente uma sensação de familiaridade que impede que o nosso pensamento se disperse antes de chegarmos à segunda metade do álbum. É com “Virginal II” que Tim Hecker se redime de “Live Room”, tema tão flagrantemente copiado da “Piano Phase” deSteve Reich e no qual todas as qualidades da obra original simplesmente desaparecem. Hecker, que satiriza os floreados literários das críticas aos seus álbuns e apresenta algum desdém pela música excessivamente académica, encontra-se aí demasiado próximo de um universo do qual não quer fazer parte, nem conseguiria fazer. A espontaneidade é essencial para o rock, para o jazz e para toda uma variedade de géneros, mas a música clássica actual depende de uma reflexão prévia que permita chegar à melhor forma de transmitir uma ideia, não sendo a esse território que o compositor canadiano pertence. Mas, quando faz aquilo que melhor sabe fazer, vale a pena ouvi-lo. Não é por acaso que captou o interesse de bandas como Godspeed You! Black Emperor ou Isis.