Do pianista vislumbrava-se metade do rosto refletido no instrumento, primeiros minutos. Cochichos de teclas, malícias brandas, pratos de bateria como gongos, Inês Nogueira com palavras graves lembra-nos «que não nos conhecemos». Três anos volvidos de o “Coro Das Vontades” ter estreado no Teatro Maria Matos. Uma obra com textos de Joana Rosa, Inês Leitão ePaulo Carvalho, registada entretanto num disco que foi oferecido à plateia na saída do concerto.

«Corporativismo», «solidariedade», dizia o pianista sobre o livro “A Conquista do Pão” do escritor Piotr Kropotkin, russo que marcou o pensamento anarquista do final do século XIX. O título dado à música gravada com Tó Trips no estúdio do Barreiro, inspirado nas suas lutas operárias, que se estreou ao vivo e ofereceu um inédito à renovada performance. Elementos de bateria dedilhados, qual pandeiretas, com precisão de offshore suíça por Baltazar Molina, o violoncelo apareceu e não mais se foi da cadeira de Ulrich Mitzlaff, assim como os sopros de Ricardo Ribeiro. Outra voz, a de Beatriz Nunes, é um instrumento, controla tremores e equaliza as emoções na sala, pondo-as à prova, em contraste com os textos ditos por Inês Nogueira, que remetem o público para a confusão e para o dia-a-dia, lugares-comuns de comichões. “A Terra Treme” foi disso um derradeiro exemplo, contemplando-se desde então um plano de dueto entre a voz flutuante e o piano, pincelados, aqui e ali, por violoncelo e clarinete.

O mote da performance de “O Coro das Vontades” é formar espaço para refletir sobre o campo de intervenção entre a arte e a política. Rebuscar o básico, espicaçar-nos como a uma espécie alimentada de rotinas, com desejos contidos em atitudes triviais e parvas, ressentimentos eternos e paixões de saqueta de chá.  Os “Manifesto a favor da utilização dos transportes públicos” e “Manifesto pela saída de emergência” são viscerais, assertivos, arranham o âmago do humano. Não são considerações de eruditismo, são alquimias do banal, do autocarro e do metro, da calçada e do café, do ordenado de merda e da reforma na farmácia, da hipocondria e da doença incurável. A nossa, bípedes com pensamento racional, a chafurdar em quereres, gostares e verdades que nem sabemos se são mesmo os nossos.