Na Wire de Abril, Cameron Stallones dos Sun Araw, confessa que a sua maior preocupação e objectivo, não se prende com fazer música, mas sim criar espaços. Não será um exercício simples essa dissociação de dois conceitos tão próximos, uma vez que, ambos podem fazer parte da mesma equação. Olhando e, principalmente, ouvindo Tiago Sousa em palco, aquilo que se pode dizer é que se assiste à criação de algo que poderia ser definido como espaços musicalizados, através da concepção de locais temporais e físicos que transmitem uma visão mais alargada daquilo que poderá ser o entendimento do piano.

De Tiago Sousa não se poderá esperar uma performance emotiva em termos de comportamento. Não se pode esperar que corra as teclas do piano de modo desenfreado e que pule em cima do banco. A perspectiva do instrumento será muito mais tranquila e contemplativa, como se pôde constatar no Museu, mesmo que surja um vírus da gripe que possa abalar a sua performance e as suas composições.

Com o Museu do Oriente bastante despido em termos de público, o concerto dividiu-se em duas partes, sendo que numa primeira fase com Ricardo Ribeiro no clarinete e Baltazar Molina na percussão, assistiu-se à exposição de temas de Insónia e Walden Pond’s Monk. A articulação dos três instrumentos funciona ao vivo de forma satisfatória, partindo-se em alguns momentos para uma encarnação étnica e tribal do som, como por exemplo na interpretação do terceiro acto de Walden Pond’s Monk. Uma forma de som viajante que transporta ao vivo para outros lugares mais sossegados e, principalmente, íntimos.

Depois de um curto intervalo, Tiago Sousa surge sozinho em palco para dar a conhecer o seu próximo disco, Samsara. Se antes tinha avisado os presentes que os dias antecedentes tinham sido de febres altas e que pedia compreensão para esse facto, caso algo não corresse de forma adequada, a verdade é que esse factor acabou por intervir de forma clara a actuação. É nesta fase que se nota que Samsara ainda deverá ser objecto de maior rodagem ao vivo para que possa ser encarado em todo o seu esplendor. Apesar disso, nota-se que a composição a solo no piano, não se fará de composições melancólicas, mas sim de uma visão equilibrada dos sons transmitidos pelo instrumento. Tal como o próprio afirmou em entrevista ao PA’, porventura para “abrir um pouco mais o leque de possibilidades expressivas com o piano”.

Se o ciclo da vida será o conceito que dá nome a Samsara, espera-se por uma nova oportunidade, para sem factores externos e com máxima inspiração, poder apreciar toda a magnitude de um disco que promete, mais uma vez, colocar o barreirense como um dos compositores mais relevantes da actualidade nacional.