Quase sem fôlego de tanto subir avistamos o grande portão de madeira da Galeria e mesmo em cima da hora do espectáculo ainda se espera na fila para entrar. Surpreendidos com tamanho aparato, e meio constrangidos, entramos numa sala escurecida e repleta de cadeiras já ocupadas, restando apenas os lugares de pé. O único foco de luz é o palco. Nunca se vislumbrou o degrau da ZDB com tantos instrumentos ao mesmo tempo, ou talvez o piano de cauda do Tiago fosse suficiente para o efeito de ilusão de óptica.

A harpa de Angelica V Salvi faz jus ao nome. Os seus dedos aveludados tilintam nas cordas num gesto delico-doce e amaciam os nossos ouvidos. Aparentemente sereno Tiago Sousa, actor principal da trama, desenvolve uma atmosfera clássica que serve de referência para o clarinete de Ricardo Ribeiro e para os instrumentos de percursão de Baltazar Molina. O quarteto oscila entre momentos simplistas e avant-garde, densamente carregados de pura introspecção, desconforto, prazer e harmonia. As ondas electromagnéticas do theremin inundam o nosso cerebelo e por momentos os corpos sentados vagueiam inebriados rumo ao seu profundo

O quarteto oscila entre momentos simplistas e avant-garde, densamente carregados de pura introspecção, desconforto, prazer e harmonia. As ondas electromagnéticas do theremin inundam o nosso cerebelo e por momentos os corpos sentados vagueiam inebriados rumo ao seu profundo ImagináriumTiago Sousa,  habitualmente reservado e de poucas falas, apresenta “Imprevisto no2” como parte integrante de “Um Piano Nas Barricadas” – é o seu álbum mais recente e a razão pela qual estivemos presentes naquela noite. Uma das faixas do novo projecto é banda sonora do filme “Bibliografia”, decidindo ainda incluir “Pêndulo” do LP “Insónia”.

E por fim um momento a sós! O pianista revisita temas vindos de “Walden Pond’s Monk” e “Samsara”. Os nossos sentidos atentos e astutos, envoltos pelas notas que irrompem pelas mãos de Tiago, eleva-nos para uma dança artificial rumo ao encontro da vivência perdida. O seu manifesto a solo é a revelação do seu maior esplendor.