Tu, Lapa. Tu, sob lúridos fogachos noturnos, eternamente nobre. Que ironia, então, entre egrégios palacetes, insignes e silenciosos, irromper em ti o grito de que algo não vai bem. Grácil, confessado no resfolgo do piano. Mas um grito.

Tiago Sousa, entregue a um renascimento perpétuo na “Samsara” tão humana, fez, sem ordenar, da Capela púlpito. Oração sem credo, louvor sem morfologia – ode à realidade, sem mais. De olhar encerrado, sobrolho franzido, deslocou-nos ele pelas ruelas do sobressalto. Aquelas, lá longe, encardidas à cor do infortúnio. Pardacento, sinistro. Que só às vestes da fidalguia chegou quando o maremoto borbulhou de fome e engoliu a terra. Metro após metro.

Ele, Tiago, por sua vez plácido, verteu na Lisboa que ali é fausta a indigência de quem, lá longe, mudo parece. Envolveu a resplandescente talha de Monte Real, outorgada no tempo ao devaneio nobiliárquico, num fino clamor de gentes sem título. Clarão desobediente sem casta. Prelúdio de que algo, de traço furtivo e travo velado, não vai bem.

Outro maremoto galgará.