Os meandros climáticos andam sui generis, como ontem o final da tarde no bairro alto, num domingo intermitente, entre o sol e chuva, disputando-se sequencialmente sem definições reais de vitória justa para qualquer um dos lados, até chegar a noite. A noite porém, hoje não interessa nada. Sem compreensão por esse facto e, revelando profunda falta de profissionalismo, não chegámos a tempo de nada ontem. A vida assim o ditou mas, sabemos de fonte presencial que os Control Unit arrancaram numa curta e dura sessão de noise ainda o ponteiro não marcava as 19h, perante um aquário de cardume já bem composto.

Não fosse Thurston Moore praticamente um semi-deus da guitarra, onde o sentimento esmaga a técnica, fonte onde muito se abeirou e limpou beiços no tempo de Sonic Youth e, já agora, esse tal, veio somente ao bairro alto encerrar uma qualquer tarde, oferecendo-nos temas inéditos e, simultâneamente, um final de fim de semana para no futuro recordar nos domingos mais tristes. Soubemos também que Moore acabara de iniciar a terceira malha da actuação, ao subir as escadas, guitarras boomerang jubilam cadenciadas por bateria numa balda de ritmo feliz.

Um enxoval de gente, impossível penetrar, a não ser que queiramos permanecer enlatados e ir fumando gradualmente. Está-se bem na ZDB no entanto, a cadeira é de latão mas o céu agora deixa ver o azul, cinzeiros aromáticos, cheira-se e ouve-se bairro alto, não existia naquele momento lugar nem hora mais propícios para as guitarras de MooreJames Sedwards, e a bateria do também sónico Steve Shelley. Boas energias circulam indiscriminadamente, transpiram de dentro para fora e vice-versa. Diferentes vozes de diferentes idiomas, os do costume e outros, inclassificáveis, perante a beleza dos acordes que não permitiram ao cérebro que se diatraísse.

Tudo no pátio da ZDB estranhamente se embrenhou, como um videoclip em directo, as conversas, o forte de pedra tuga envelhecida, com uma velhota simpática à janela, espantadíssima. Apesar das achegas da guitarra ao amplificador e do pé à pedaleira serem frequentes em Moore, esta apresentação de material, revelou uma luminosidade que cada vez mais impregna a sua música. Claro, antes do final, arranhou profundamente as paredes do aquário, voltando-se ao noise mas desta feita num registo mais artesanal do termo, o dos primórdios; dez minutos de performance para repentina e, novamente, os guitarristas se unirem em mútuos arremessos de acordes, ping-pong de feeling que Shelley quase pauta (ainda assim, não me recordei que existe outro instrumento rítmico), acolhido efusivamente pelos convivas que ilustraram depois uma longa e esperançosa ovação. Lá fora, estava a chover.