Nutridas por uma asfixiante e perturbadora realidade, amontoam-se, nos dias de hoje, quotidianas crónicas sobre um futuro desmanchado. A elas, os This Routine Is Hell ripostam, reabrindo os livros de História e percorrendo as páginas dos inquietos por natureza. Será uma causalidade que atrás do título deste disco esteja o espírito literário de Allen Ginsberg?

Os holandeses são em 2013 uma fiel demonstração da mesma ira que prosperou nas caves da Califórnia e de Nova Iorque, motivada pelo conservadorismo da Administração Reagan. Há em Howl uma berrante fúria que não se deixa limitar pela inconsequência da juventude, mas que revela sim uma procura de quem, tal como José Régio, sabe que o caminho “não é por aí”. Os This Routine Is Hell transpiram as raízes do punk hardcore e fazem-no da mais genuína forma possível: questionando, mais do que as instituições em redor, o seu próprio comportamento – as citações “roubadas” aIan MacKeye, Dan Yemin e Ginsberg reforçam essa busca interior por valores libertos de qualquer restrição hierárquica e dogmática.

Musicalmente, a banda de Utrecht dificilmente poderia ter um som mais contextualizado com a sua mensagem: as comparações face aos Ceremony ou Paint It Black são naturalmente inevitáveis, mas há neles mais do que isso. A arrastada abordagem em Shiver, na qual Noam Cohen vocifera “there’s nothing left inside” recorda-nos a alienação com que os Black Flag encerram o seu My War. A guitarra redescobre os trilhos por onde Greg Ginn torturou sem piedade as suas seis cordas e os This Routine Is Hell conduzem-nos por uma bifurcação onde também visitam o mais puro punk hardcore, veloz e intratável – é de duvidar que este ano encontremos música mais crua do que a instigadora Nostalgia.

Em I Wake To See The World Go Wild esbarramos noutra das robustas qualidades de Howl: Kurt Ballou. A habilidade do homem responsável pela enciclopédia de riffs dos Converge não se limita à guitarra; actualmente, os seus créditos como produtor precedem-no e é nesta malha que podemos testemunhar o quão corpulento está o baixo e o quão dissonante está a guitarra. A composição dos europeus ressoa também mais aperfeiçoada do que nos seus dois anteriores trabalhos de estúdio: Howl é uma singular peça de 21 minutos, onde a tensão se dilata a cada tema, eclodindo por fim numa Asleep que é a melhor faixa da carreira dos This Routine Is Hell.

O segundo álbum dos holandeses afronta os lamentos dos que afirmam que o hardcore perdeu o seu conteúdo e o seu primordial intuito – em Howl, temos uma cabal demonstração de que os conturbados tempos originam desafiantes criações.