Os Thievery Corporation são, para muitos, um bando de ladrões de boas músicas, que as transformam num produto qualquer. Ora, eu ainda não apurei se o nome da banda deriva do seu comportamento de desviadores dos bons costumes da world music com raízes latinas, ou se é uma crítica a essas súcias de jogadores que andam a pilhar a malta e a ocupar Wall Street antes desta ter sido tomada pelos 99%. De qualquer forma, vou assumir que a segunda faz mais sentido, até por causa de toda a cultura de medo que se está a gerar em torno destes movimentos de insurreição – obrigado, senhores polícias, por gostarem de nos acarinhar diariamente; sinto-me muito mais protegido depois de tudo o que tenho visto.

Se até há uns tempos, todas estas questões políticas não estavam muito claras nos discos dos Thievery Corporation, que se perdiam em algumas metáforas para difundir as suas mensagens, os norte-americanos colocaram qualquer margem fora da sua nova apresentação, para mostrar que há, realmente, um conteúdo que não se fica pelo abstracto. As letras ao longo de todo o disco deixam isso muito claro e os títulos são uma boa antevisão do que cada uma nos traz. Felizmente que a máxima de Rob Garza e Eric Hilton não deve estar distante da de Emma Goldman: “Se eu não posso dançar, não quero a tua revolução.”

O novo álbum da dupla de DJs e da sua banda não foge, na verdade, às suas propostas anteriores. As suas músicas continuam virulentas, atacam primeiro as pernas e as ancas e os sintomas da maleita são uma dança tântrica desenfreada e ininterrupta. Contudo, se compararmos com a sua obra maior, The Richest Man in Babylon, a componente mais espacial e chill out foi preterida.Culture of Fear é o exorcismo da alma em busca do fim a que faixa de encerramento nos expõe, “can you say ‘I’m free’?”.

Neste mesmo aspecto, os elementos de reggae continuam muito evidentes no sétimo longa-duração da banda, mas ficaram de parte alguns elementos mais típicos da world latina que os Thievery Corporation tão bem introduziam na sua música. Há um enconsto dado levemente ao jazz em Light Flares (e não só), há, claro, uma piscadela de olho ao trip-hop e à sua versão mais hip-hop, com a faixa-título, e há uma melancolia transversal a todas as músicas, a que os dedilhados de guitarra ajudam, quando se apoiam nos metais e no baixo (esse grande e cheio de groove baixo), de resto, os elementos mais característico do som dos norte-americanos.

Não é com alegria que os Thievery Corporation denunciam a cultura baseada no medo em que a sociedade ocidental vive. Quando se tem medo, não há melhor do que fechar os olhos e dançar com os nosso demónios.