Aos círculos se começou com as ambiências hibridas do pós-rock e do metal. E nos círculos se manteve a prestação dos Russian Circles. Sempre comprometidos exclusivamente consigo, a sala salpicada com mais ou menos gente não lhes importava. Daí que entrassem mudos e saíssem calados literalmente, a comunicação foi zero com o público, a exclusividade nos instrumentais fez o resto. Salvaram-se as trocas de olhar. Também, em boa verdade, não havia muitos que fizessem da vinda dos Russian Circles à cidade miticamente fundada por Ulisses, um evento a celebrar. E o pacto estabeleceu-se, uns cumpriram o seu papel de aquecimento para These Arms Are Snakes, os outros tentaram aquecer-se nos círculos sonoros de Russian Circles. A impressão é que pouca gente se aqueceu. Fica a memória.

Com o diabo no corpo do vocalista, Steve Snere, mostrava de quem era a noite e para quem era a noite. These Arms Are Snakes torna-se inteligível quando se enxerga ao vivo o epilepsismo desse homem, Steve Snere, esbracejando, contorcendo-se, movimentando-se, alucinando, gritando, pulando… é ele o animal homem-cobra, o que faz jus ao nome da banda de Seattle. Um animal disfarçado de homem com grandes patilhas, loiro e com ar de louco sado-masoquista, que tanto empreende tentativas de provocar o público, se funde com o próprio público ou encena actos tresloucados em que finge um acto de asfixiamento com o seu cinto. Por vezes chegou a parecer que o resto da banda era apenas um background sólido para os actos de teatro pós-moderno do vocalista, mas não. As cobras têm braços de vários corpos e não só de um. Todos vibram em trejeitos sibilantes.

Fazia pouco tempo que Tail Swallower and Dove estava nas ruas, e aproveitando o facto de ser novidade, os These Arms Are Snakes esmeraram-se para espalhar o perfume do seu novo disco, também ele epilético e com ondas de extravagância que se norteiam por padrões mesclados de hardcore, pós-rock e pitadas de noise. Imposta a novidade, Easter de 2006 tinha também a sua oportunidade. O público agradeceu, correspondendo ele também ao músculo da banda de Seattle, comprometida em deixar marcas na noite de Outono. O cheiro a suor, fez assim, a sua aparição bem cedo, garantindo que quase todos pensassem em mudar de roupa para o dia a seguir e talvez tomassem um banho uma vez chegados a casa.

Premiados com encore, talvez pela insistência do público, talvez como presente da banda (julgo ter percebido, que a banda não costumava fazer encores, pelo meio daquele declamado a passo ultra-acelerado), restava saborear os últimos suspiros da noite. Espalhavam-se os instrumentos e começavam-se a guardar as saudades. Estava na hora de remar a casa, ou talvez tentar aproveitar uma hora escassa de divertimento no Bairro Alto, que a fartura já lá ia.