Enquanto foram parcos em palavras, os Silver Mt. Zion existiram na sombra de um demónio revoltado muito mais assustador do que lamúria de Efrim Menuck e companhia. Estavam ofuscados por uns sempre envoltos em negrume Godspeed You! Black Emperor, que não deixavam de ter a luz ao fundo do túnel como essência da comunicação unilateral, sem diálogo, que encetavam contra a máquina capitalista. O hiato do colectivo de “Yanqui U.X.O.” fez deThee Silver Mt. Zion Memorial Orchestra & Tra-la-la Band a voz principal da esperança que impregnava os corações solitários de Montreal.

Trata-se de perspectivas audíveis: o que era residual em “Born Into Trouble As the Sparks Fly Upwards”, presente num indagar constante, num “e depois?”, ficou firmado no EP “Little Lightning Paw”, quando se ouve a entrada a pés juntos, em modo chamada-para-a-revolução, de “More Action! Less Tears!”. Grito justificado no embevecedor coro de “Microphones in the Trees” (“Don’t give up/Don’t give in/Our time will come/’Cause we are the flood”).

Mudando o ponto de vista para o regresso dos esperançosos GY!BE, vemos uns Silver Mt. Zion a assumir o pessimismo que não cabe no colosso post-rock em “Kollaps Tradixionales”, uma postura cimentada com o mais recente “Fuck Off Get Free We Pour Light On Everything”. É impossível dissociar aquilo que é o agora-quinteto de Montreal daquilo a que este soa — onde a esperança antes gritava de pulmões cheios, agora entra a fúria de uma “Austerity Blues”, com um crescendo orquestrado na taquicárdica percussão, intensa como só ao que uma banda com o peso e a fome do punk poderia soar, épica como uma andamento de Wagner.

É neste meio-termo, estanque mas difícil de balizar, que existem os Silver Mt. Zion. A bateria, directa, firma as bases num rock bem agarrado pelo baixo, explorado e expandido inteligentemente pelos jogos entre a guitarra e os violinos.”Fuck Off Get Free…” balança entre o pesado da música homónima, de “Austerity Blues”, ou “Take Away These Early Graves Blues”, e a depressão profunda de ”What We Love Was Not Enough”, ou do regresso à mais psicadélica, mas não menos orquestrada, “Rains Thru the Roof at Thee Grande Ballroom (For Capital Steez)”.

De forma coesa, os autores viram as suas páginas ao ritmo da História. Acrescentaram mais uma, sobre não desistir uns dos outros quando já todos parecem ter deixado de ter esperança. Há aspectos que não mudam: em Montreal, ainda é o amor que serve de motivação principal. Um motor que não se consegue conter dentro da câmara a que deviam estar restringido o ensemble que são os Silver Mt Zion. As suas razões continuam maiores do que as fronteiras de Montreal, do Quebec, ou do Canadá.