Um início descomprometido, quase sem qualquer sentido. Na realidade, doze inícios, cada um começo do anterior, algo que pega no feedback esquecido e lhe dá um novo sentido. Aquelas primeiras faixas parecem uma conversa dissonante em tom de aviso para o que está de atalaia. De seguida apercebemo-nos de que 1.000.000 Died To Make This Sound. E é com alguma tristeza que nos dizem. Tristeza que não é atenuada pelo balanço repentino que a música parece adquirir. Muito pelo contrário, a guitarra com uma distorção carregada e quase exagerada como ruído de fundo só ajuda a este sentimento frustrante. Se há algo que não falha nos trabalhos de Silver Mt. Zion (SMZ) é a intensidade das suas músicas e a forma como estas nos atingem – este não falha à regra.

Esta frustração, carregada de ódio, carrega ainda em 13 Blues For Thirteen Moon, sob os gritos «I just want some action!». Uma música que em semelhança com um Post-Metal só tem a lentidão do andamento e o peso transmitido pela guitarra, que os restantes instrumentos cortam essa sensação, consegue nutrir os mesmo efeitos que bandas do género. Algo que acaba, que o bom não é para sempre. Mas fica melhor, com um Blues à SMZ; a música é a mesma e a harmonia também. À medida que cresce, percebemos que a melodia não mudou. Realmente, podia ser uma música Post-Metal ou até Post-Doom, visto que até a composição nos recorda algo semelhante, porventura. Acalma, e volta a crescer. Desta vez excede-se até ao fim, que retoma o descanso – que é algo que este álbum não dá: mexe connosco.

Black Waters Blowed/Engine Broke Blues começa no tal descanso. É quebrado pelo puro ruído, pela aleatoriedade, ainda que atenuados pelas vozes, até que estes se tornam numa melodia nos mesmos moldes da anterior: pesada, lenta e com força. Não fosse a guitarra a solar por trás de tudo isto… Descanso, novamente, que se perde outra vez numa lentidão melodiosa e que encerra calmamente, de igual forma.

No entanto, o erudito é algo que ainda está bem presente, como demonstra BlindBlindBlind, que é uma recuperação de todas essas capacidades, ilustrada pela voz de Efrim, que está cada vez melhor no papel de vocalista – ainda que com a sua voz peculiar. Esta última música, é aquilo que caracteriza esta banda: música Clássica numa interpretação Rock. Um auge, entre muitos. Mas este sabe a esperança.

Não me sinto capaz de dizer “este é o melhor”, ou “este é o pior álbum da banda”. No fundo, como todos os outros, tem uma identidade própria e independente dos outros; uma identidade que se compreende na perfeição em Silver Mt. Zion e naquilo que se espera deles. Posso, no entanto, dizer que este álbum tem muito dos dois últimos trabalhos da banda, Horses In The Sky (2005) eThis Is Our Punk-Rock, Thee Rusted Satellites Gather + Sing(2003): as vozes do primeiro excelentemente combinadas com a instrumentalização do segundo, com uma pitada de Punk na mistura e uma intensificação do peso nas músicas.

O registo está longe da sonoridade de câmara que inicialmente caracterizou o projecto Silver Mt. Zion. Agora que consagrado, o experimentalismo é cada vez mais nítido, fugindo aos moldes do Post-Rock em que estavam. Este 13 Blues For Thirteen Moonsestá mais Rock, está mais Clássico, está mais pesado e está cada vez mais distante daquilo que identificava o anterior projecto principal que reunia grande parte da banda, Godspeed You! Black Emperor, que se movimentava precisamente dentro deste esquema. E é precisamente o que escrevi que quero dizer: ainda que em moldes semelhantes, Thee Silver Mt. Zion Memorial Orchestra & The Tra-la-la Band conseguiram distinguir-se deGodspeed You! Black Emperor; já não faz sentido afirmá-los como um projecto paralelo desse.

Naturalmente, a presença do ex-baterista de Hangedup faz uma diferença significativa na força/balanço da música de SMZ. Enquanto baterista, Eric Craven toca certinho, sem grandes avarias, mas mostrou ser o baterista indicado para o projecto em questão, libertando muito mais os violinos, os violoncelos e o contra-baixo – que antes tinham ainda o papel de fazer ritmo, para além da melodia. E esta liberdade sente-se muito na riqueza das melodias e da ambiência, que estão muito mais exploradas pelas cordas. Thee Silver Mt. Zion Memorial Orchestra é cada vez mais Tra-la-la Band, ou pelo menos neste álbum funciona como uma.

As letras ganham um papel ainda mais importante neste álbum, nem que seja por já se poderem encontrar no álbum – segundo anunciou a editora da banda. Cada vez mais revoltadas e cada vez mais revolucionárias e despolitizadas, as palavras de toda a banda adquirem uma vida contagiante, que desperta em nós a vontade de nos juntarmos a eles para cantar a revolta e a mudança – que devíamos ser. É impossível separar as aspirações de toda a banda da natureza das suas letras, pois, segundo eles mesmos afirmam, estas são resultado das conversas e das relações que a banda mantém. E é essa capacidade, de tornar as suas descrições algo de corriqueiro, natural e desejado, que é mais contagiante naquilo que eles entoam.

Valeu a pena esperar por 13 Blues For Thirteen Moons. Agora só vale a pena esperar mais por um concerto aqui perto.