Despertando numa ondulação de brancos tons, a quietude de Tryexpõem ao Jardim da Torre de Belém os três vultos mais ansiados:Jamie, Romy Madley-Croft e Oliver Sim. A sua estética minimal, de negro trajada e somente atenta aos neutros rubores, lembra-nos o fascínio dos The White Stripes pelo vermelho e alvo – mas, em oposição ao extinto projecto de Jack White, os The xx não deflagram na efervescência do rock.

Daí que a vasta plateia, acotovelada em permanente luta pelo melhor ângulo, se inquiete com uma explosão que tarda em chegar – e que tão bem que ela encaixaria nas gravações amadoras de quem não dispensa sacar o telemóvel do bolso. Heart Skipped A Beat serve quatro minutos de um digital sussurro, abrindo cortinas para uma Crystalised em modo tântrico – o uníssono cantarolar de Belém vê-se fintado por Jamie xx, mestre maior das cerimónias rítmicas dos londrinos. Entregue a uma maquinal parafernália, ele é mais do que produtor: é o monarca que decreta o anti-clímax. Seja por pegar em Crystalised pela mão e levá-la a caminhos a que os norte-americanos jocosamente apelidariam de “dry humping”, seja por corromper Shelter de tiques upbeat, obrigando a que os isqueiros se limitem à função para que foram concebidos.

Um concerto dos The xx move-se nos compassos de uma tensão permanente; de uma provocação que se embriaga na sexualidade implícita – que não tomba no fácil lascivo mas que se adorna com uma melancolia de travo mundano, como nos conta Sunset. É precisamente nos capítulos de Coexist que se torna difícil varrermos Burial da memória – os soturnos graves de Jamie xxrelembram-nos a difusa musculatura de Untrue e Missing, tema onde a multidão acompanha fielmente Oliver no seu etéreo queixume, garante-nos que a tristeza do post-punk respira no cromossoma XX. Essa simbólica contradição, conquistada entre a induzida sensualidade e a suspirada angústia, enleva-se notavelmente em palco: VCR transpira ares de hino e Chainedarrepia quando a dupla Romy-Sim murmura “We used to be closer than this”.

Os The xx são tão de carne e osso quanto nós e a comum mortalidade também lhes trespassa o espírito. Não surpreende, então, que, mesmo após os ziguezagues anteriores de Jamie, o orgasmo chegue por fim: Infinity entrega a sua alma nos braços da reverberante guitarra, no magnetismo de pulsar lânguido e na voluptuosidade de duas vozes que nos revelam que desistir não está nos seus planos. Toda a tensão tem o seu desfecho e Infinityfoi o mais bonito desenlace que os ingleses poderiam ter escolhido – após isto, até o epílogo escrito pelo feltro de Intro e Angelsperdeu fulgor.

De altar abraçado ao sopé da Torre de Belém, Lisboa uniu-se aos The xx e, por enquanto, o casamento – palavra escolhida pelo próprio Oliver numa das suas intervenções para descrever o Night + Day – é para sempre.

Antes de se deitar na synthpop orelhuda dos Chromatics, o sol abençoou os PAUS com um raiar semelhante ao de Julho do ano passado, altura em que os portugueses visitaram o Alive (ele que fica ali tão perto). Comedido pé direito, em antecipação a uns Mount Kimbie que obrigaram Oliver Sim e Jamie xx a saltar até à plateia, para melhor ajuizarem uma banda que lhes fará companhia em Berlim e Londres – as outras cidades privilegiadas com o Night + Day. Amplificados num triunvirato quando em formato live, os também londrinos mostraram que as suas ambiências, se ideais são para respirar de pulmões abertos em habitats clubbing, não respondem da melhor maneira quando colocadas a bronzear sob o sol lisboeta e em modo-só-passei-para-dar-um-beijinho. Que Cold Spring Faultess Youth nos faça uma visita a sério em breve. A deep house catalã de Talabot, apesar de codificada por um ADN onde o calor não perturba, revelou-se igualmente alérgica ao sol. O fervor que ƒIN anseia é o da madrugada regada a álcool, o do ébrio after-hours, e só quando Oliver e Romy saíram do backstage para cantar uma versão de Chained é que as hostes se sublevaram.

Assentou no único projecto não-europeu do cartaz principal o primeiro belo concerto: os Chromatics pegaram nos três quartos de hora que tinham à mão e encheram-nos com o seu excelenteKill For Love. Pode até tresandar à electro-pop de há três décadas, mas não há como resistir aos encantos de These Streets Will Never Look The Same ou à enorme versão de Into The Black de Neil Young. Ainda nos mostraram como soa a novinha Cherry ao vivo e relembraram-nos que Kate Bush poderia aparecer ali à beira Tejo para nos cantar Running Up That Hill, num formoso duo com Ruth Radelet.