A música de The War On Drugs surge de um pleno de cenários verdejantes, ora áridos, ora comidos pela virgindade das zonas quase indígenas de um interior por descobrir dos Estados Unidos. Não, um parágrafo não pode ser demasiado poético, quando comparado com Slave Ambient, o segundo longa-duração brotado do génio de Adam Granduciel.

Para já, porque o nome da banda é, desde si, um prenúncio virulento para o que ouve: um encarar da vida com uma leveza imediata, soalheira, em especial ao interiorizar Best Night, tema que abre a porta de Slave Ambient. Apesar de tudo ser demasiado familiar – Kurt Vile, ex-membro da banda, já o fez, este ano -, a envolvência dos The War On Drugs torna-se fresca, revigorante, qual banho de mar ao final da tarde.

Isto porque as cores da pop deste colectivo juntam-se à fórmula clássica do rock para criar um disco bem ao estilo dos cantautores-trovadores vindos da terra do Tim Sam. Sim, Bruce Springsteen, Tom Petty podem orgulhar-se da impressão digital biométrica que deixaram como legado. Colhendo essa herança e criando paisagens, pensadas a dedo pelas harmónicas folclóricas, os The War On Drugs são ‘artistas engagés’, não no sentido histórico do termo, mas sim ao serem capazes de recriar passado, adaptando-o, contudo, às sonoridades do hoje.

Your Love Is Calling My Name é, assim, um postal de portentosas guitarras e de respiração acelerada; enquanto que a voz de Granduciel nos soa a algo como um cruzeiro a alta velocidade, abastecido por sintetizadores enérgicos e dançáveis.

Num casamento sem direito a divisão de bens, a electrónica sofisticada une-se ao cariz sonhador denso, parindo uma intensidade languida e preguiçosa, cheia de groove. Visceralmente, em Slave Ambient, somos confrontados na cara, ainda, com devaneios post-punk em Come To The City, saídas à Can ou psicadelismos étereos, carregados em reverb, de It’s Your Destiny.

Slave Ambient não promete mudar a vida de ninguém. Mas promete um relaxar instantâneo, quando encarado como um todo e é disso que se alimenta: de uma linha condutora perfeita. E só esse pormenor torna-o, à cabeça, perfeito.