São cada vez menos as bandas que encerram em si um universo próprio. No sentido inverso, são cada vez mais as bandas que encerram em si um universo feito de retalhos de outros tempos. Ainda assim, escasseiam as que, em pleno exercício de evocação, constroem um universo com sentido e originalidade, construindo uma fórmula única e apelativa. Felizmente, os War On Drugs são um desses raros casos.

Neles, como no poeta, há espaço para encontrarmos todos os sentimentos do mundo. Ouvimos Dylan, ouvimos My Bloody Valentine e até Crosby, Stills, Nash e o virtuosismo de Young, tudo unido com uma candura pop que é difícil de encontrar. Isto porque a abordagem vocal e harmónica seja claramente americana(com a harmónica não raras vezes a substituir a voz e a guitarra), a abrasão deliciosamente incomum e o pendor épico típico do shoegaze ajuda a fugir aos territórios evocados.

Cândido e lânguido, entre muita luz e ainda mais fumo, entre EP e os dois longa durações já lançados, o quarteto soube conquistar de mansinho o público do Musicbox – um público cuja maioria sabia o que tinha ido ver e soube esperar pacientemente pelo arrebatamento. Não haveria de demorar. É que o etéreo (cósmico) também lhes é uma arma, a derradeira responsável pelo tiro de arrebatamento que nos leva de viagem.

Em palco como em disco, Adam Granduciel e companhia fazem acima de tudo canções. Canções de arrebatamento, corpóreas, de camadas e texturas esculpidas até à perfeição. A espaços, de olhos fechados – a melhor forma de os ouvir e dançar – parece que estamos perante Dylan, canalizado em corpo e voz para Granuciel. Outras vezes, chega-nos a doçura dos Lush, em paisagens delicodoces que toma de assalto o sentido que aqui mais importa: a audição. Mesmo quando o virtuosismo se torna palavra de ordem na guitarra, não nos sentimos alheados, mas antes atraídos para tomar mais atenção ao que ali se passa. E o que se passou foi bem especial, capaz de nos transportar para um confortável limbo sensorial do qual não pretendemos sair tão cedo.

A verdade é que os War On Drugs não existem para revolucionar o mundo. São, acima de tudo, músicos seguros de si mesmo, cientes do seu valor e com uma sensibilidade musical e um sentido estético fora do normal. É por isso que a beleza do seu cancioneiro é quase transcendente: seja no palco ou nuns auscultadores, essa beleza é-lhes facilmente reconhecida e apreendida. Além de que a mensagem que eles carregam merece ser ouvida e partilhada por esse mundo fora, um pouco à semelhança das mensagens deDylan e dos CSNY.

É por isso que custa pensar que, um dia, quando a ligação a Kurt Vile cair justamente, os War On Drugs talvez caiam também. Porque estes quatro rapazes já eram uma banda antes de Vile e são-no ainda mais agora. E acima de tudo porque se caírem, o público vai perder uma banda de que precisa para o século XXI. Até lá, fazendo figas para que isso nunca aconteça, esperamos secretamente que quem esteve ontem no Musicbox guarde para si, com carinho, o encontro e a comunhão entre público e banda que se viveu no Cais do Sodré.