Numa banda menor, a saída precoce de um talento como o deKurt Vile seria uma sentença de morte quase certa. Felizmente, os The War on Drugs revelaram-se bem mais do que uma “bandazeca” e, deixados a cargo de Adam Granduciel, conseguiram – mais até do que sobreviver – brilhar com mérito próprio sem se deixarem ofuscar pela brilhante carreira que Vile viria a fazer a solo. Se “Slave Ambient” (2011) já fazia antever que a banda de Philadelphia tinha pouca vontade de arrumar as guitarras, não poderá haver maior prova da relevância dos The War on Drugs do que este “Lost in the Dream“.

Confiante no caminho a seguir, Adam Granduciel não sentiu necessidade de mudar muita coisa nos The War on Drugs. Assim, a banda continua bem enraizada na América e carregada daquelasnuances solarengas e difusas que lhes assenta tão bem. A diferença é que, agora, tudo parece estar reforçado com uma vitalidade e intensidade que não se entende bem de onde veio. Talvez pela banda estar melhor entrosada tendo também adquirido experiência desde o último disco ou pelo processo criativo ter sido uma actividade full-time, o que salta à vista é a grande maturação das capacidades de escrita e composição de Granduciel. Sim, a estrutura dos temas é, em geral, algo linear e parece obedecer a uma fórmula (crescendos de guitarras gradualmente mais difusos sobre uma base rítmica bem definida), mas, mais do que por surpresas inesperadas ou mudanças de andamento, as canções de “Lost in the Dream” conquistam pela sua tremenda eficácia. “An Ocean in Between the Waves”, por exemplo, pode não ser imprevisível mas não há como ficar indiferente ao seu ritmo contagiante, aos seus bonitos solos de guitarra ou à sua intensidade crescente e absolutamente avassaladora. Mais do que um oceano, entre estas ondas encontramos uma das canções do ano.

Sem acanhamento, “Lost in the Dream” vive entre uns Dire Straits menos descarados no swing e um Bruce Springsteen menos calejado pela vida. Não é de todo difícil pegar em “Burning” e traçar um paralelismo com a clássica “Walk of Life” dos ‘sultões’ ou pegar no tema que baptiza o disco e equipará-lo a alguma das baladas mais country do Boss, mas seria algo desrespeitoso para com osThe War on Drugs reduzir o seu trabalho a uma espécie de recauchetagem de influências por muito boas que elas fossem (e são). O que transparece do álbum é, sim, uma humilde homenagem de quem trilha o seu próprio caminho mas reconhece que, sem nomes como Knopfler ou Springsteen, talvez não conseguisse fazer a música que faz hoje. Ao melómano, cabe-lhe agradecer – tanto a uns como a outros – por este magnífico punhado de canções.

Se quiséssemos ser mais duros na análise deste álbum poderíamos apontar-lhe alguns defeitos mas nenhum destes seria particularmente grave ou danificaria realmente a sua reputação. É verdade que em “Suffering” os vocais de Granduciel não estão à altura da emoção que a parte instrumental do tema transmite mas esta continua a ser uma canção belíssima e emocionante. Não é menos verdade que “The Haunting Idle” aparece descontextualizada num disco que é, de resto, bastante directo, mas será justo apontar o dedo a uma merecida pausa para respirar entre dois malhões como “Eyes to the Wind” ou “Burning”? Não é, nem os The War on Drugs merecem que esses dedos lhes sejam apontados depois de um disco tão majestoso quanto este. Certamente que não o estão a ler aqui primeiro mas “Lost in the Dream” será é já um dos discos do ano.