Os The Secret, fazendo aqui uma lambidela linguística, já não um segredo guardado na botinha que é a península Itálica. A Southern Lord  apresentou-os ao mundo e o mundo gostou do hardcore meets black metal empapado de lama e desgraça. Contam-se quatro discos desde 2004 e os dois últimos são o melhor que essa turma de reguilas pós-Cursed já fez. Há por aí muitos del Sartos, mas os The Secret são como o Michelangelo a pintar de negro o tecto da Sistina e a pegar-lhe fogo logo a seguir. 

Liguei o Skype para falar com o Michael Bertoldini. Ele já não está em Trieste e agora tem os canais de Amesterdão como bons vizinhos. Ele é o guitarrista e ele é o grande chefe de redacção na escrita que os The Secret produzem. Fiquei a perceber que se calhar tão cedo não vamos ter um disco novo e encheu-me o coração uma certa confindência familiar. 

Como tem sido a experiência de viver longe de Itália? Eu estou afastado de Portugal há três anos e a minha atitude para com a vida mudou radicalmente.

Eu vivo na Holanda há um ano e partilho a tua posição. Mudares-te para outro país, seja lá ele qual for, é sempre um grande desafio. Nasci e cresci na Itália e, como muitos, sempre fui intensamente crítico para com ela. Mas olhar a minha cultura e a minha terra à distância fez-me reparar em aspectos particulares que sempre mantive como garantidos. Viver no estrangeiro fez-me de alguma forma menos cínico.

Essas palavras fazem-me total sentido. Eu era um miúdo que passava o tempo a criticar Portugal, o governo, as pessoas…

O frio do norte é porreiro, mas suspeito que sentiremos sempre saudades da sujidade que há no sul, de uma maneira ou doutra.

Será a maturidade a bater à porta? Vês essa maturidade a afectar os The Secret? Vocês existem há mais de uma década e já não são uns putos quaisquer.

Não tenho a certeza se já atingimos esse ponto de maturação, mas garanto-te que crescemos tanto a nível pessoal como musical. Nos nossos primeiros dois discos, estivemos sempre à procura do nosso som de uma maneira quase forçada. Foi no “Solve et Coagula” que nos tornámos no que somos. Lá encontrámos forma de canalizar todas as nossas ideias num processo final simples e despido de excessos. Antes desse disco, queríamos misturar tudo, pois julgávamos que essa era a maneira de ser mais original. Só depois do “Solve et Coagula” encarámos a banda de forma bastante séria. Investimos mais tempo e tornou-se a nossa grande ocupação entre 2011 e 2013. Passar mais tempo dentro de um projecto faz-te ficar plenamente consciente do que é necessário fazer. E de como fazê-lo.

Mas achas que a vossa maturidade individual poderá reflectir-se num próximo disco ainda mais cru e simples?

Não sei ainda. O ano de 2014 foi um ano contemplativo, onde passei grande parte do tempo a tentar perceber para onde o nosso som irá. Toquei guitarra sozinho bastantes vezes e raramente demos um concerto ou ensaiámos. Compus alguns temas e gravei um monte de ideias, mas ainda é bastante cedo para descrever o que tenho. De alguma forma, gostaria de manter as coisas bastante puras e, ao mesmo tempo, expandi-las. Não sei se te faz sentido.

Faz. Sempre tive este feeling de que o black metal é algo que nos The Secret deveria ser mais explorado. Fica a dica. Mas disseste que ensaiam pouco. Tem que ver com a tua ida para Amesterdão?

É um dos grandes factores, mas a nível geral andamos todos bastante ocupados com as nossas vidas pessoais. De maneiras diferentes, nós atravessámos grandes mudanças e sentimos que era necessário pararmos um pouco para respirar, após um par de anos a tratar a banda como prioridade.

Houve algum momento em que pensaste que os The Secret podiam terminar?

Não. Eu preciso mesmo de me expressar através da música. Tocar e compor é uma necessidade. Com a motivação certa, há sempre espaço para fazeres o que gostas.

Já equacionaste fazer uma cena a solo?

Sim. mesmo. Eu tenho uma ideia na qual adoraria ter a participação do meu pai. Ele é um baterista incrível, mas nunca tocámos juntos. Ele cresceu com o Billy Cobham e com o rock progressivo, acabando depois por encarnar o espírito do heavy metal. Ele tocou numa banda italiana chamada Dark Lord no início dos anos 80.

Porra! Excelente. Vou ter de ouvi-los. Mas essa tua ideia tem mesmo pernas para andar?

Tenho uma malha até ao momento. Gostava de ter mais e depois gravar. Vamos ver, mas eu e o meu pai estamos longe de ser as pessoas mais organizadas, portanto acho que o mundo vai ter de esperar um pouco. [risos]

E o novo dos The Secret? É mesmo para acontecer em 2015?

Eu quero mesmo gravar música nova este ano.

Então, espera, se calhar estamos aqui a falar de algo como um EP e não o tal disco dito longa-duração.

Sim. Eu acho que o EP é um bom formato para este tipo de música.

Portanto o Burning Light que esqueça a hipótese de ouvir música nova.

setlist vai centrar-se no “Solve et Coagula” e no “Agnus Dei”.

E vão ficar para o fim-de-semana? Cenas que queiram ver por lá?

Há excelentes bandas no festival. Espero sinceramente conseguir ver os Bölzer, já que os EPs deles são excelentes. Também quero espreitar OathbreakerHierophantMutilation Rites.

É uma treta não poder ir. Quando voltarem à Escócia ou ao norte de Inglaterra apitem. 

Combinado.