A vida transporta em si uma interminável percentagem de casualidade. Há uma repetida sensação de absurdo, de como se tudo fosse sintaxe do fortuito – uma obra cujo alvará pertence ao acidente. Prova disso são os traços de personalidade: o que para uns é confiança, para outros não passa de sobrançaria desmedida; “olha para esta, tem a mania que é mais que os outros”, diz-se de quem não tempera a extroversão; “era muito bom moço, dava-me sempre os bons dias”, repetem os vizinhos de um qualquer recém-assassino. Os The National são humanos e, ao sê-lo sem cair na demasia, não falta quem também traduza a sua quietude em chatice e o fechar de olhos perante Demons em bocejo.

Talvez porque os nova-iorquinos jamais se envergonhem da sua fragilidade, mesmo que a diluam em intricados jogos líricos – após um triunvirato feito a Alligator, Boxer e High Violet, sabemos que Matt Berninger não nos mente quando se confessa «a television version of a person with a broken heart», na belíssima e plangentePink Rabbits; a mesma faixa que ao de leve menciona Bona Dragde Morrissey, como se de vestígios precisássemos para redescobrir a tortuosa alma do ex-The Smiths a cada vocábulo do americano. Mas Berninger ousa agora descodificar-se sob pequenos estilhaços: em Trouble Will Find Me, entranha-se num substrato capaz de fazer deste álbum a mais confidente narração dos The National e de rompante nos diz «I should live in salt for leaving you», prosseguindo o auto-flagelo na directa I Need My Girl – um vagueio entre a comiseradora paranoia e o subtil sentido de humor.

Sintomático. A banda de Brooklyn é hoje património infindável – alguém imaginaria, há uns anos, que o Pavilhão Atlântico a albergaria? – e, em vez de sucumbir perante o seu estatuto (como tantas outras), abraça a popularidade através de um conforto musical não só explanado na translucidez de Berninger, mas sobretudo na desenvoltura instrumental que agora respira. É emTrouble Will Find Me que Bryan Devendorf propaga as mais graciosas texturas rítmicas dos The National, retirando-lhes alguma carga upbeat e ornamentando-as com uma explosão que nunca se concretiza – apenas se induz, como Fireproof tão bem comprova. Cursando novamente os ecoantes corredores da chamber pop de High Violet, os norte-americanos concebem 55 minutos que em nada embaraçam o seu antecessor, consequência de uma alma dilatada e elegantemente espalhada por Sea of Loveou Graceless.

Esse é o segredo de Trouble Will Find Me: a aura.