Passaram-se duas semanas desde que fui acometido por uma doença estranha que atirou comigo para o leito. Não é nada sério, pelo que me dizem. Uma mera inflamação no ouvido que, insignificante, mexeu o suficiente cá dentro para fazer de mim gelatina, tornar-me vertiginoso, percepcionar a realidade num turbilhão que não parava e que, pior, me impedia de estar na vertical, essa vitória genética ganha após milhares de anos de evolução.

Passaram-se duas semanas desde que fui assaltado fisicamente por um quarteto de Brooklyn. Um caso sério, diziam-me, capaz de causar lesões no compósito vertebral – da bacia até ao pescoço – e de deixar sérias sequelas no sistema auditivo. Confirma-se. Ainda hoje, numa convalescença quase vencida de uma doença insignificante, a violência vertiginosa dos The Men ecoa no cerebelo com uma reverberação digna de quem passou por um período de rigorosa dieta de Dinosaur Jr. e Sonic Youth.

Um acorde – foi tudo o que bastou para me desconcertar e desenfrear uma labirintite aguda à boleia dos acordes e riffs mais fixes de sempre, embrutecidos por uma ZDB ansiosa por libertar energia mais dura que pura – ansiosa enfim por mostrar devoção sincera para com os The Men. Em palco como em disco. O ruído e o volume impõem-se altos e, perdoem-me a redundância digna de quem está desorientado, imponentes. A atitude jovem, fresca e queNeil Young quererá ter tido quando tinha idade para isso transparece em Bataille, agrava-se em () e nem em If You Leaveabranda.

Os The Men, ao contrário da doença que me assombra, são um diamante em bruto que se quer abrutalhado e, ressalve-se, sem cura – mesmo quando as reminiscências de shoegaze apontem para uma falsa espiritualidade e sentido de evocação. Afinal, entreImmaculada e Take Me Home, há riffs que são violência sem como nem porquê, à espera de serem sacados sem precisão mas com curiosa sabedoria.

A algazarra de riffs orelhudos, aparentemente simples e dinâmicos, apega-se e dilata-se nos corpos – calculo que tal como a nevrite vestibular – que aquecem, vibram, saltam e gritam. Assim se desceu com eles para Hades. O denominador comum foi a vertigem com que percorremos a estrada de alcatrão quente que eles nos estenderam, a bordo de um Camaro descapotável que eles controlaram. A velocidade, essa, variou: uma vez a dois tempos, outras vezes a dois, a três ou a quatro. Mas eles, esses quatro de Brooklyn, pareceram fazê-lo sempre sem pressas. De uma forma tão natural que quando os últimos acordes soaram e demos por nós tontos, embalados e de pescoços destroçados, quisemos entregar-nos à convulsão nauseabunda que nos assaltou durante cinquenta minutos.

Duas semanas passaram entre uma noite quente e a convalescença fraca que agora se abeira do fim. Mas ainda arde na memória os trinta minutos dos Loosers (re)feitos num trio que bebeu toda a sabedoria cósmica que os teutões nos tiveram para oferecer. Estes sim, em postura espiritual, em linha com o universo, em turbilhão com a natureza. Espaciais, gingões, crípticos q.b. e com vontade de fazer abanar a anca, marcaram no meu tímpano texturas dignas de se ter em conta (leia-se sentir) nos tempos vindouros. Não fosse uma ou outra marca no corpo ou a memória de terceiros e quase diria ter estado perante uma fantasia de quem quer estar bem e não pode.

Mas aconteceu e amanhã é dia de me pôr em pé e dançar ao som do cosmos.