Estou numa relação longa e, ainda que consumada, algo difícil com os The Mars Volta. Já lá vão dez anos desde que, qual conto adolescente, senti amor à primeira vista pela banda. Foi o fascínio pela complexidade, a tentação do desconhecido, a vontade de experimentar algo novo e crescer a ouvir alguém que, na altura, era claramente melhor que eu mas que em 2012 já mal reconheço.

Fui aguentando de tudo um pouco: as constantes entradas e saídas de gente, o cair do gingar electrizante e, em última análise, a perda de uma identidade única, uma arrogância que lhe ficava bem e dava autoridade para caminhar com sabedoria acima do mundo.

Hoje, como ontem no Coliseu dos Recreios em Lisboa, os The Mars Volta são uma banda algo perdida em si mesma, a meio de uma metamorfose com um objectivo claro: a obtenção de uma nova identidade. Mas as relações têm vícios e toda esta história vai levar um pouco mais de tempo do que gostaríamos.

Por um lado, percebo-lhes o arrojo de se reinventarem depois de uma carreira brilhante. Por outro, reconheço-lhes a dependência de Cedric Bixler Zavala e principalmente Omar Rodriguez Lopez, que os prende à génese do prog-rock e não lhes permite abraçar completamente o espírito punk dos ressuscitados At The Drive In, ou o foguear adolescente e rebelde dos Startled Calf.

Eu até sei que nestas coisas da vida a estabilidade nem sempre é a primeira instância e fiz por compreender o passo atrás deOctahedron. O problema é que o passo seguinte (Noctourniquet) deixou-os exactamente no mesmo sítio e em palco então fê-los dar dois passos atrás. O agora quinteto soube partir bem e arrancar com The Whip Hand –mesmo que o som embrulhado tenha impedido Deantoni Parks e Lars Stalfors de brilhar ainda mais alto -, mas perdeu parte do público ao abrir caminho porNoctourniquet adentro. Trinkets Pale of Moon é agradável para parte dos prog-heads que ainda ouvem Phish, Empty Vessels Make The Loudest Sounds teima em não terminar e lufadas de som e aplicação como Malkin Jewel e Broken English Jam mal chegaram para respirar e transpirar entusiasmo.

É com a chegada de The Widow que me apercebo de uma coisa: esta relação existe por conformismo. Porque eu sou um óptimo ouvinte e porque eles são uns excelentes músicos. É o que cada um de nós sabe fazer melhor e é o que vamos continuar a fazer, mas sem mais nada para dizer ou acrescentar um para o outro. Porque deixar de lado temas como Cicatriz ou Inertiatic ESP, Take The Veil Cerpin Taxt é ignorar um cancioneiro brilhante, escrito e gravado a fogo que parece votado ao esquecimento.

E nem o regresso a Bedlam in Goliath, via Goliath (claramente assente nos princípios espaciais de Omar Rodriguez Lopez e a sua infinita pedaleira), fez esquecer que os trejeitos latinos, o sangue quente e a veia punk aparecem esquecidos e diluídos em texturas leves e demasiado efémeros. Desta feita, sou eu que vou dar um passo fora, para repensar o que estou a fazer aqui. E se continuar, será sempre com menos expectativas, menos esforço e menos vontade de compreender aquilo que cada vez mais parece – em palco ou em estúdio – um exercício de comunicação unilateral que nem o ruído (ou a ausência dele) torna excitante.