Estes são dias afortunados para Paulo Furtado. Se por um lado recebe louvores pelo seu mais recente trabalho, “True”, por outro vai-se preparando para esgotar salas por este país fora, tal como se sucedeu com a sua presença no Lux. O maior exercício que antecipava o concerto seria perceber como se encararia a sua presença fora do one man show. De facto, o seu novo longa-duração prometia algo mais completo, resultado de um delinear concreto e abraçado por temas musicalmente mais robustos e frutuosos. Contudo, se é verdade que a parte cénica sofreu com a sua ausência a tempo inteiro do banco da bateria, a parte musical melhorou exponencialmente.

Iniciadas as hostilidades com “Do Come Home”, curiosamente uma malha que pela sua brevidade e calma soa a despedida, apresentou-se em palco sozinho apenas com a sua guitarra. Ecoadas vozes pela sala, o Tigre tratou de as tentar amansar. Afirmando ser conhecido por duas virtudes, a primeira das quais tocar guitarra e a segunda urinar na cabeça das pessoas, o aviso para os faladores acabou por, como se notou no fim do concerto, não surtir o efeito desejado. Reposta a momentânea ordem,Furtado assumiu a postura em que mais o reconhecemos, mãos e pés ocupados para voltar a “Masquerade” com Walkin’ Downtown e ao clássico “Naked Blues” com o seu tema título de amplificadosblues.

Regressado ao seu quinto álbum de estúdio, “Wild Beast” e “Storm Over Paradise” serviram para expor o seu novo formato com o baterista Paulo Segadães. Logo aqui se notou que tudo ganha uma diferente dimensão, diga-se de passagem, para melhor. No entanto, preza-se o facto de que, a parte de retorno ao passado, seja tocada na sua forma original como o arisco “Crawdad Hole”, aceitando-se porém que a abertura de goela em “& Then Came The Pain” seja mais natural com as pancadas totais nos vários atributos de uma bateria a “tempo inteiro”.

Esta foi uma noite do The Legendary Tigerman se rodear de outros músicos. “Gone” e “Dance Craze”, com os sopros no saxofone de João Cabrita a responder aos acordes de guitarra, tornaram-se no momento da noite. Apesar disso, Filipe Costa, ou aquelas que foram apresentadas como “umas das melhores mãos de Portugal”, transformaram “Green Onions” em algo mais dinâmico e progressivamente dançável. Para fechar a noite, “21st Century Rock ‘N’ Roll” abordou aquela que é a melhor música de “True”, incentivando Paulo Furtado a tomar a altura das colunas, a trepa-las e a gritar ininterruptamente o estilo musical que tanto o reveste.

Mesmo tendo dito que não voltaria ao palco, a insistência levou-o a mudar de opinião. “Love Ride” mostrou que talvez tivesse sido melhor que não o tivesse feito. Novas ameaças de urinar na cabeça dos regressados faladores e descida à plateia para prometer confronto (sem sucesso), foram desnecessários. Para o fim, ficou a sensação agridoce de que tudo poderia ter assumido contornos ainda mais prometedores, tivessem sido evitados os momentos extra musicais.