Ao longo dos últimos anos, a ZDB tem sido o palco escolhido pelo Homem Tigre para apresentar a sua versão natalícia dos blues. Intitulada Fuck Christmas, I Got the Blues, esta foi, mais uma vez, a noite perfeita para todos aqueles que decidiram trocar as rabanadas e o bolo-rei por música e, mais concretamente, pela versão mais pura do trabalho de Paulo Furtado.

Infelizmente, a actuação foi, igualmente, revestida de simbolismo, uma vez que, segundo o próprio, este terá sido o último evento natalício em que o conimbricense estará presente na galeria, enquanto The Legendary Tigerman. Se, num espaço como o Coliseu, a música e as características de blues e rock and roll do ex-Tédio Boy perdem alguma da sua essência, são os espaços menores e mais familiares – como na sala do Bairro Alto – que permitem que os temas apresentados sejam mais tocantes. Ou seja, que possibilitem, tal como aconteceu, uma troca de palavras entre o público e Paulo Furtado, ou a interacção com quem passava para lá dos vidros da ZDB, nomeadamente um momento caricato de troca de gestos com a senhora que passeava o cão.

Por outro lado, os temas resultam melhor e ganham um formato mais “sujo” e enraizado, tão familiar nos blues, e nos sons que Tigerman retirava da guitarra ou das pancadas secas e ritmadas no bombo da bateria. O também membro dos Wraygunn trouxe consigo um repertório essencialmente composto por temas deFemina, como Hey, Sister Ray, Radio & TV Blues ou & Then Came the Pain, contando com a presença de convidadas virtuais através das projecções que iam sendo apresentadas.

Por sua vez, temas mais antigos como Naked Blues ou Big Black Boat, não foram esquecidos. Para que a noite fosse ainda mais consistente, a presença de Selma Uamusse e Filipe Costaimortalizaram a recorrente homenagem que Paulo Furtado tanto gosta de fazer a alguns artistas que o influenciam, desta feita com Mississippi River e She Said de Hasil Adkins a serem dos temas contemplados. Para o encore, mais uma cover do gospel: No More My Lord, tema com cariz religioso e Jesus na ponta da língua.

Para o encerramento perfeito da noite, o tema que dá título ao evento e que não era tocado há mais de nove anos. Fuck Christmas, I Got the Blues tornou-se num dos melhores momentos da noite, com Filipe Costa a desafiar os limites da harmónica e Tigerman a levar ao rubro o público que, com ele, entoava o refrão. Terá sido uma bela forma de exorcizar as palavras divinas que tinham sido proferidas no tema anterior.

Noites como esta, repletas de espontaneidade, são cada vez menos recorrentes actualmente e Paulo Furtado conseguiu, de forma clara, transmitir esses momentos. A um ano de distância, é possível afirmar que a falta de um evento como este será, certamente, sentida, não havendo lugar a blues, mas, apenas e somente, ao deprimente Christmas.