Os Glockenwise não trazem novidades de lado nenhum para ninguém. Mas têm para dar a lição de que mais tarde ou mais cedo nos esquecemos: a juventude é a melhor fase da nossa vida e não é porque somos mais bonitos ou mais saudáveis – é a melhor fase porque é quando ninguém nos culpa pelas asneiras que cometemos. Os rapazes de Barcelos, que nem uns génios do óbvio, gritam em conjunto a receita para a juventude eterna: simplicidade e atitude.

É o sangue que distingue barcelenses dos demais rockeiros que andam por aí a infestar. Não que os barcelenses sejam uns porcos sanguinários, mas deixaram-se de tretas quando começaram a ouvir o Iggy a fazer a sua pop proto-apunkalhada e desistiram da escola para tocar guitarra (facto de todo não comprovado, portanto nada factual, mas que fica a matar aqui). Longe de serem os estudiosos (e aborrecidíssimos) do rock que andam por esse mundo fora, os Glockenwise parecem ter o desprezo pela limpeza que anda a descaracterizar a música e o gingar da tarola-surfista-de-dois-baques-seguidos nas artérias.

Pulsantes de atitude, atiram malhas mal arranjadas como Columbine (Out of this Town) ou o single Scumbag, que nos põem a dançar insultos e impropérios como ninguém. São músicas de uma simplicidade assustadora, ao ponto de não se sentirem arranjos. O que se ouve no álbum é o que se vê num concerto: guitarras mergulhadas em tremolos ou reverbs a traçarem a melodia à base de power-chords e refrões com coros catchy a acompanhar os gritos de desordem do vocalista Nuno Rodrigues, como, aliás, se nota em Stay Irresponsible com os uníssonos “I Was Having Fun,” ou em Goodbye com os gritos de despedida da banda toda, do princípio ao fim da cancão.

Em It’s Not a Dead End But It Most Certainly Looks Like One, decidem fugir a isto, sem irem para muito longe, e mostram mesmo o prazer quase onanista que têm na música que fazem. A meio da canção ostentam lenta e sensualmente o momento de blues mais puro e duro do álbum, quase decadente de tão arrastado, apesar de o ser suficientemente, pelo menos de forma a pavonear o momento da melhor maneira.

Graças a esta simplicidade, que nada tem de cândida, The Glockenwise conseguem aquilo a que a música pop se anda a propor desde início e que acaba por não conseguir nestes últimos anos por nos encher os olhos de efeitos e enfeites à tabela.Building Waves tem nove faixas, e certamente que oito delas podiam ser singles – excluí-se uma, porque é uma faixa de transição meramente instrumental.

Se as suas maiores qualidades são mesmo este desprezo pela indústria de se fazer pop, traduzido em tudo o que se mencionou em cima, acaba por ser também essa a carta que mais pode jogar contra estes rapazes: podem sofrer as consequências de terem escolhido como primeiro single a música mais agressiva e de já não se ouvir rock sem peneiras; podem padecer desse mal que é um álbum esgotar-se por não ser mais do que se ouve de imediato. Mas a verdade é que estes rapazes se protegeram da melhor maneira, sem os exageros típicos do rock, de quererem um álbum que dure uma hora.

Building Waves é garage rock à moda antiga e em todos os sentidos. Desde a música à forma como esta é feita e aos cerca de quarenta minutos que dura, estes rapazes barcelenses têm o mesmo sangue na guelra que os seus ídolos. São os legítimos herdeiros do legado que, em Portugal, nos deixaram os Vicious Five. E têm a grande vantagem de ter mesmo a juventude nas mãos e de serem os putos a que os lisboetas tentavam chegar.

Numa altura em que a música em Portugal venera as bandas Flor Caveira e Amor Fúria, é bom ver que há alguém que tem atitude suficiente para mostrar como é que o rock se quer: sujo, feio e genuíno. Não há cá Roque ene Role, rapazes e raparigas. Os Glockenwise não enrolam ninguém, tocam ROCK e o Building Waves é um verdadeiro seminário de atitude.